Sunday, March 06, 2005

Até os deuses temem a morte, o esquecimento de que nós, humanos que os adoramos, lhes viremos as costas e nos voltemos para outro lado, daí que nos venham com milagres e outras visões fantásticas... Os deuses nada mais querem que arranhar as nossas costas e deixar lá a sua marca eterna para o dia em que caiamos no nosso caixão. Ao chegar esse dia, o dia em que a sua promessa se concretiza, visitam-nos como se fossem uma outra pessoa e resgatam-nos das garras da verdadeira morte.
Esta é a única coisa que verdadeiramente podem fazer por nós depois de mortos, desta forma poderemos sempre ser recordados na memória das pessoas que nos eram mais queridas e beijá-las durante a noite para que possam repousar mais tranquilamente pensando em nós da melhor forma.
Um dia quis ter a forma de um deus, quis ser como o eram aqueles seres do Antigo Egipto e que agora apenas são recordos através das estátuas, mas não consegui... Era como se a minha vontade de deixar de ser humano estivesse dependente da minha forma, queria ter garras para rasgar a minha carne, asas para que pudessem ser partidas por toda a humanidade, queria ter o corpo coberto de penas para que pudesse visitar os sonhos das outras pessoas, queria mandar raios para que pudessem ver o quanto às vezes me irritam mas que mantenho oculto sobre a máscara da minha mortalidade.
Um outro dia tentei invocar um espírito, acendi umas velas e tirei as roupas do meu corpo, reguei-me com a água mais pura do mais puro regato mas nada aconteceu, nem uma ténue brisa me veio dizer: "estou aqui", nada... A partir desse dia comecei a sentir-me profundamente sozinho, os rituais de pegar numa faca e cortar os pulsos seguiram-se dia após dia, cada dia rasgava mais um pedaço da minha carne e o meu fluído vital escorria pelas paredes acima como se a gravidade não existisse.
Todos os dias em que procedia ao meu ritual, sentia-me ser visitado por um deus, ou algo ainda mais poderoso que todos eles, penso que um espectro negro a que lhe dão o nome de morte. Não se aproximava de mim, apenas queria falar e eu estava disposto a ouvir. Todos os dias vinha ter comigo e dizia-me que estava cada vez mais proximo o meu dia, mas que não era ainda nesse dia. O seu corpo esfarrapado corria velozmente à minha volta depressa e mais depressa, depois de tudo isso parava mesmo à minha frente, não sentia medo, mas a sua mão fria fazia-me sentir algo de verdadeiramente estranho.
"Que me querias dizer?"
"Obrigado por o ouvires..."
"Mas não oui nada."
"Os teus ouvidos não ouviram nada mas tu estavas disposto a ouvir."
Nos dias seguintes esforçava-me verdadeiramente por ouvir algo mas ela vinha sempre com a mesma conversa. Nada ouvia. Foi no meio de um desvario destes que me virei para ela e lhe perguntei-lhe porque é que não ouvia nada. Ela apenas me disse que se o fizesse, mesmo que distraidamente, morreria nesse mesmo instante.
No dia seguinte ao ir ter com ela não quis fazer nada mais que dar-lhe um beijo no seu crânio. Nada mais vi nos momentos seguintes. Tudo à minha volta rodava depressa demais e a única coisa que me aconteceu a seguir foi curioso...
Vi-me em frente a um lago. Ela disse "Bebe" eu recusei-me e ela quis falar comigo. Determinantemente eu recusei-me a ouvir e ela devolveu-me à vida.

1 comment:

AFSC said...

Simplesmente AMEI a tua forma de escrever "isto", gostei mesmo muito do que li, parece parvo sem razão, mas quase que me emocionei, gostava de falar melhor contigo sobre aquilo que aqui escreves-te.
Abraço do teu amigo,
@lex