Wednesday, March 16, 2005

Dormia traquilamente. Todo o meu dia fora de grande alegria, passara o dia inteiro a brincar e estava cansado. Era final do Verão e ainda fazia calor e por isso deixara a minha janela aberta. Algumas folhas secas já eram espalhadas pelo chão com a vinda de uma brisa.
Sonhava com piratas e outros seres que qualquer criança se lembra de sonhar, sonhava com índios, sonhava com uma ilha...
Observando o meu sono estava na rua uma fada na rua, uma fada muito pequenina sentada num pequeno ramo da árvore do jardim da minha casa. O seu fato era pouco brilhante, já estava velha e daí a alguns anos morreria. Haviam restos de lágrimas nos seus olhos e toda a beleza que outrora tinha estava a apagar-se para dar lugar à idade. A pequena fada já se cansava com grande frequência e os dias pareciam cada vez mais encaminhar-se para o fim.
Todas as crianças a conheciam mas poucos eram os adultos que ainda se lembravam quem era ela e isso magoáva-a muito. Era muito temperamental, por isso quando o Peter resolveu deixar para sempre a Terra-do-Nunca, ela ficou bastante furiosa com ele.
Cada noite que passava a sua ilha envelhecia, cada noite que passava ela se sentia cada vez mais cansada à procura de um substituto para o Peter. Não mais se ouviam os seus gritos, não mais haviam lutas com piratas nem aventuras naquela terra agora velha.
Sininho estava sentada num pequeno ramo da árvore onde eu brincava todos os dias chorando... O meu cão ao sentir a sua presença latiu um pouco deixando-a perturbada. Parecia que todo o mundo a queria matar, magoar para sempre. Ela apenas queria o Peter de volta. Ao ouvir o meu cão a ladrar acordei e fui à janela muito cautelosamente ver o que se passava.
A Sininho estava quase para se ir embora quando reparou que eu a havia visto. Aproximou-se da minha janela e entrou pelo meu quarto adentro. Voou um pouco pelo quarto até se aproximar da minha cama e ficar lá a chorar. O seu brilho parecia muito mais pálido que imaginara nos meus sonhos.
Por momentos não sei o que fazer e apenas me ocorre a ideia de lhe fazer festinhas. Ela olha para mim com restos de lágrimas a escorrerem pela face. Abriu as suas asas e esvoaçou à minha volta, deu-me um beijo e foi-se embora.



Os anos foram-se passando e eu fui avançando na idade. Os meus dias de brincadeira foram-se transformando em dias com outras ocupações, mas aquela noite permaneceu sempre.
Numa noite dei com a Sininho novamente deitada na minha cama. Estava ainda mais velha e o seu brilho quase não iluminava nada. Disse-me que estava muito triste. A Terra-do-Nunca estava a desaparecer, estava a envelhecer demasiado depressa, as fadas não mais queriam saber dela, os piratas tinham ido para outra ilha, os índios começaram a morrer, não haviam mais rapazes perdidos a irem lá ter...
Todas as lágrimas que escorriam dos seus olhos nada mais eram que o sair da vida de lá. O Peter era a alma daquele lugar, sem ele, a Terra-do-Nunca não mais seria encontrada pelas crianças nos seus sonhos. Ninguém mais queria saber dela... As folhas das árvores caíam demasiado depressa. O pássaro-do-nunca não fora mais visto.
Eu já não era nenhuma criança, mas ainda assim, o mundo da fantasia povoava constantemente a minha vida. Muitos eram os momentos em que dava por mim a imaginar aventuras com estranhas personagens num mundo que não é real.
Eu não era nenhum contador de histórias, mas as historias povoavam a minha vida e foi por ver o final trágico de uma delas que dos meus olhos se escaparam algumas lágrimas; eu lembrava-me de em criança andar pelos pinais brincando ao Peter Pan, esperando que ele um dia nos viesse buscar e pudéssemos voar, lembrava-me de estar sentado muito quieto a ler a sua história.
Eu não era mais uma criança e todas aquelas lembranças... custava-me a acreditar que pudessem acabar assim sem mais nem menos. Por não ser criança, não estava nada optimista e acreditava que mais tarde ou mais cedo teríamos notícia do final da Terra-do-Nunca.
Eu não sabia nada do Peter, nunca ele viera ter comigo... e isso magoára-me muito. Deixava a janela todos os dias aberta, mesmo no inverno, esperando que ele aparecesse à procura da sua sombra.
Ambos largámos lágrimas ao futuro esperando que as crianças que venham salvem a terra que sempre nos acolheu nos nossos sonhos...

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