Tuesday, June 21, 2005

Paralesia

Apenas a cama descansa
a cabeça não larga as páginas
ou as folhas marcadas de palavras.
A cabeça pesa
Não sabe nada de nada
Pesa cheia de coisas fúteis.

umdoistresquatrocincoseissetesoitonovedez
ossospulmõesmúsculoscoraçãocérebroneurónios
moscasratospintosabetardasbichosvermes
plantasanimaiscoisas

nada mais
tenho o cérebro completamente cheio de merdas. Cheio de coisas que me fodem o juízo. Cheio de cenas que tenho de arranjar maneira de saber para os exames. Cheio de coisas que cairão assim que acabar o exame.

Fujo de 2+2
Como entre o esterno e a clavícula
Acordo com ratos na cama

Viajo para esquecer todas as coisas que me pesam e o meu corpo cai morto. Paralizado.
A minha cabeça não consegue mais raciocinar. Os livros são queimados à minha frente enquanto espero o fim dos tempos.
Qualquer forma de conhecimento será esquecida pela humanidade do futuro. Cada pessoa terá de pagar para saber alguma coisa. Por agora vai sendo relativamente barato termos coisas na cabeça.
Virá o dia em que um ditador se achará senhor do conhecimento e todas as pessoas passarão a saber o que ele quer que saibam.
Até lá teremos de meter coisas cá dentro e acabar uma época de exames de rastos...

Monday, June 20, 2005

Amar...

Há vinte dias que percorro os caminhos desta minha vida a que chamo Somoda. Não é que tenha vendido a minha alma ao diabo e viva uma vida de pecado. A questão é que vivo rodeado de pessoas que pecam com todos os seus dentes. A questão é que também eu sou arrastado nesse universo de pecado.
Se o mundo fosse mais livre, poderia ver as pessoas a beijar quem quisessem. Nesse mundo não sofreria por ver um rapaz apaixonado por mim. Não sofreria ao ver duas lésbicas a serem motivo de chacota. Nesse mundo as pessoas tolerar-se-iam.
Ninguém escolhe quem gosta. Todos têm as suas preferências.
Um dia vi uma pessoa a apaixonar-se por um cão. Gostava tanto dele que o passeava todos os dias em frente à janela do meu quarto. Todos os dias brincava com ele.
Ela morreu. O cão ficou sozinho. Encontrei-o na rua perdido, sem companhia. Olhei para ele. Reconheceu-me.
Levei-o para casa. Sentia na sua pele o amor que lhe emanava do corpo. Ele também amava aquela pessoa.
Vivi com ele pouco tempo. Ele começou a definhar. Não conseguia encontrar a pessoa de quem gostava. Sentia-a presente mas não conseguia vê-la, estar com ela. Deixou de comer. Deixou de tratar do seu pêlo. Todos os meus esforços para o manter vivo não resultaram pois ele havia de acabar morrendo. Seguiu as passadas do seu dono. Nada eu poderia fazer.

Tuesday, June 14, 2005

:: Changes

You can change any man
You can change any man
A friend
A tragic end
You can change at any hour
Change the colour of a flower
You can change at any hour
Change a song that needs a change
You can change of opinion everyday
You can change all the rocks you find in your way
Change your mind
Change your life
Change the changes
Change the chances
You can change your shoes
You can change your blues
You can change the colour of your soul
Change your friends
Change your lens
But you know your heart you can't change
Change
You can change the world
You can change a lot more
You can change the girl who lives next door
Change your eye
Day and night
Change your eye
Day and night
You can change your shoes
You can change your blues
You can change the colour of your soul
Change your friends
Change your lens
But you know your heart you can't change
Change
Não se vêm pessoas na rua. Não se molham pessoas com a chuva. Não se embriaguiam os do custume. Não vivem os mortos.

Sunday, June 12, 2005

Um homem pega numa estrela metálica e gira-a em cima da mesa como se de um pião se tratasse. Olha todo o bar com um olhar vago e misterioso. Olha para todas as pessoas do bar. Tem sempre um sorriso nos lábios. O seu olhar perturba-me profundamente. Faz-me sentir vulnerável. Para mim esse homem é um daqueles exploradores de África que regressa à cidade.
A sua roupa está bem engomada. A sua camisa, cujas mangas lhe ficam pelos cotovelos, deixam ver uma quantidade de pulseiras de cores diversas.
O seu exotismo arrepia-me. O seu olhar escondido atrás de uns óculos escuros é vago. A forma como fuma recorda-me as paisagens quentes de Marrocos. Recorda-me os tempos em que eu e mais alguns conhecidos nos sentávamos a beber um chá de menta. Nada para fazer.
A minha bebida aquece com o calor que está. Metade do sabor perdeu-se. O meu incómodo instála-se. Preciso de sair.

Thursday, June 09, 2005

Verão - Dois num quarto

É uma quente tarde de Junho. Diz um actor. Verão. O público entra na sala de espectáculos com toda a sala escura. Faz-se sentir a luz que vem do palco com as cortinas a serem corridas. Dois actores movimentam-se já. Um deles veste a personagem Pedro enquanto o outro o nome de André. Os seus nomes foram escolhidos ao acaso, não se trata de ninguém em concreto.

Existem outros actores. Também eles se encontram já em cena mas não se mexem. Estão à volta dos outros dois. Actuam como se fossem sombras julgando os dois protagonistas no centro da cena.

Todo o espectáculo está gravado, tal como se fosse o palco fosse uma tela de cinema com um registo virtual que nunca foi filmado. Toda a acção gira em torno da problemática relação entre as duas personagens.

Um filme pornográfico passa diante dos olhos de dois desesperados, diz o actor. Não se conhecem os actores e a história não existe, apenas acção. Dois ou, por vezes três ou mais, corpos geralmente nus em toques enérgicos fazendo sexo. O prazer que dá a homens ver esses filmes e colossal. O sangue flúi mais acentuadamente no sexo e excita-os, leva-os a desejar ter prazer. Dois actores vêm um filme pornográfico procurando excitar-se.

Faz-se noite na sala. Diz o actor, a peça acaba de começar.

É um quarto o local onde decorre a cena. É um quarto de estudantes, onde tudo se encontra disperso um pouco ao acaso. Há livros em estantes e na secretária. Folhas por tudo o lado. Não existem cadeiras e a cama é apenas um colchão posto no chão. Em cima de uma caixa há um ecrã ligado passando um filme pornográfico. Espalhados pelo quarto habitam restos de cigarros. Junto à cama o respectivo cinzeiro um pouco cheio. Pelo chão estariam copos, garrafas de água e de cerveja, algumas estão vazias. Um canivete espetado sobre a mesa e roupas dispersas algumas delas já usadas fazem parte do cenário. O caos seria o dono do quarto. Era o quarto de Pedro. O seu mundo.

Os móveis são completamente frios. O metal domina a paisagem não deixando esperanças para a madeira se libertar do seu jugo. Sente-se como se se estivesse numa cela apertada, sem cores demasiado vivas. As roupas dominam o olhar, são as únicas cores que mancham o espaço. Estão dispersas por todo o quarto. Algumas estão dobradas de forma rigorosa como se quisessem libertar do caos e tentar dar uma ordem a tudo.

O cheiro de incenso sentir-se-ia levemente pelo ar em constante luta contra o odor do fumo dos cigarros que dominavam completamente. Apenas lhe restava acabar de se consumir e aniquilar-se. Enquanto isso não acontecia, ardia comodamente em cima da secretária. Desde sempre que estes cheiros lá estiveram. Desde sempre eles o sentiram e apenas agora os descobriam.

Os actores misturam-se com o fumo do quarto, espalham-se como baforadas do cigarro, apenas as suas palavras resistem.

A descrição do cenário seria feita como se fosse uma gravação, algo distante, afastado que tenta desesperadamente chegar até ao público. Descreve todos os pormenores, desce o cinzeiro ao canivete. Qual a disposição das garrafas e quais delas têm líquido no interior para que o próprio público sinta como se estivesse na sua casa e conhecesse todos os seus cantos.

O lugar onde decorre toda a cena será sempre tratado como uma prisão. Ninguém pode sair de lá. É sempre um lugar de fumo, de cinzas. Um lugar de solidão e desespero.

A peça começa agora, diria o actor. Nada se sabe acerca das personagens, da história, apenas o nome de cada uma. Um nome como qualquer outro.

Eles olham-se durante muito tempo sem nada dizer. O público estranho nunca entraria no seu mundo, é algo de distante. É algo de estranho.

A peça começa agora, agora, agora. A peça começa e termina sempre. O actor olha o público como se esperasse dele uma resposta. O público seria indiferente, estranho.

Wednesday, June 08, 2005

Speed of sound

Uma homenagem ao último álbum dos Coldplay que acabou de sair. Divinais.

how long before I get in
before it starts, before I begin
how long before you decide
before I know what it feels like
where to?
Where do I go?
if you've never tried then you'll never know
how long do I have to climb
up on the side of this mountain of mine

look up, I look up at night
planets are moving at the speed of light
climb up, up in the trees
every chance that you get
is a chance you seize
how long am I gonna can stand
with my head stuck under the sand
I start before I can stop
before I see thing the right way up

all that noise, all that sound
all those places that i have found
and birds go flying at the speed of sound
to show how it all began
birds came flying from the underground
if you could see it then you'd understand

ideas that you'll never find
or the inventors could never design
the buildings that you put up
Japan and China... all lit up
the sign that I couldn't read
or the light that I couldn't see
some things you have to believe
but others are puzzles, puzzling me

all that noise, all that sound
all those places that i have found
and birds go flying at the speed of sound
to show how it all began
birds came flying from the underground
if you could see it then you'd understand

all those signs I knew what they meant
something you can't invent
Some get made, and some get sent
ooh
words go flying at the speed of sound
to show how it all began
birds came flying from the underground
if you could see it then you'd understand
oh, when you see it then you'll understand

Wednesday, June 01, 2005

o medo de um fosso abisma-me as ideias, recuo sempre. Alguém ao longe me chama, espero que venha ter comigo e me abrace. Entre eu e ele separa-nos algo que não consigo perceber o que é. Grito pela sua mão. Ela vem e afaga-me a cabeça.
O precepício não é mais lá... Sou eu sozinho no espaço com aquela mão amiga, com aquele corpo quente, com a minha frieza e insensibilidade. Não consigo mostrar que amo...
Sinto-me impotente mas feliz...

Os meus olhos abrem-se e apercebo-me que estou no meio do abismo, que vou caíndo e que as coisas para trás ficam sem significado. Não estou só, alguém vai comigo. Alguém segue os meus passos e me ampara a queda.
Não sei o que é amar de verdade mas essa pessoa que me acompanha talvez saiba. Pergunto-lhe e não me sabe responder. Procuro mostrar-lhe mas não me sinto satisfeito.
Sinto-me felis com tudo isto...
Procuro descobrir-me nesta relação e encontro-me nessa outra pessoa que está do outro lado do espelho e que me acena constantemente. Ensina-me o caminho pelo outro lado do espelho nesse mundo que não conheço e me diz: "Eu gosto muito de ti". Desvio os olhos para o lado e sinto que a sua presença está constantemente no meu corpo. Não me sinto tão livre como era mas estou feliz com tudo isso...
Ajuda-me a saber amar-te...