Há vinte dias que percorro os caminhos desta minha vida a que chamo Somoda. Não é que tenha vendido a minha alma ao diabo e viva uma vida de pecado. A questão é que vivo rodeado de pessoas que pecam com todos os seus dentes. A questão é que também eu sou arrastado nesse universo de pecado.
Se o mundo fosse mais livre, poderia ver as pessoas a beijar quem quisessem. Nesse mundo não sofreria por ver um rapaz apaixonado por mim. Não sofreria ao ver duas lésbicas a serem motivo de chacota. Nesse mundo as pessoas tolerar-se-iam.
Ninguém escolhe quem gosta. Todos têm as suas preferências.
Um dia vi uma pessoa a apaixonar-se por um cão. Gostava tanto dele que o passeava todos os dias em frente à janela do meu quarto. Todos os dias brincava com ele.
Ela morreu. O cão ficou sozinho. Encontrei-o na rua perdido, sem companhia. Olhei para ele. Reconheceu-me.
Levei-o para casa. Sentia na sua pele o amor que lhe emanava do corpo. Ele também amava aquela pessoa.
Vivi com ele pouco tempo. Ele começou a definhar. Não conseguia encontrar a pessoa de quem gostava. Sentia-a presente mas não conseguia vê-la, estar com ela. Deixou de comer. Deixou de tratar do seu pêlo. Todos os meus esforços para o manter vivo não resultaram pois ele havia de acabar morrendo. Seguiu as passadas do seu dono. Nada eu poderia fazer.
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