Saturday, November 27, 2004

Acordo de manhã ainda o sol não nasceu. O frio desta cama, agora tão só como um deserto, gela-me o corpo. Não tenho a meu lado a sua presença. O seu corpo enquanto vivo aquecia o meu enquanto não era morto.

- Anda, vem deitar-te ao meu lado. Sinto a falta do teu corpo com sabor a mel e estou muito carente.

Depois de morta é que sinto a sua falta. O seu ar sempre tão preocupado quando de madrugada me levantava e ia para o mar, as suas aflições, os seus medo... bem sei que ficava horas acordada rezando, pedindo a Deus que me protegesse do temporal que se havia levantado. Quando chegava, já o sol começava a despertar, ela estava na praia e era a primeira a ir ter com o barco. Antes que saisse do barco beijava-me e tão docemente como nos juntávamos à noite, ela levava-me a terra firme.
A mesma terra que me acolhia era a mesma que a levou para longe de mim.
Morreu passam já três meses e desde então que uma escuridão pesa sobre mim e não mais consigo dormir. Passo noites em claro, vejo os dias com olhos cansados de não dormir, o meu corpo já não trabalha como costumava, é agora muito mais velho, muito mais triste. A dor da minha alma não consegue viver a minha vida.
Um dia pedi-te que se morresse antes de ti, não chorasses. Hoje penso que o que te pedi foi demasiado forte. Eu, ainda que tentando não consigo abafar esta minha dor que tanto pesa sobre o meu cérebro e o esmaga. As minhas lágrimas correm como rios de umas ruínas abandonadas, esses destroços de uma cidade perdida e que não mais voltará a ser reencontrada.

- A minha mulher não morreu...

Queria berrar aos céus, esquecer esta dor e continuar a minha vida. Mas não consigo. Este corpo tem demasiadas lembranças a torturá-lo e as memórias de toda uma vida revolvem o meu ser. Ainda que não quisesse, o que deveria começar por fazer era tirar a esperança de te voltar a ver; talvez dessa forma, esqueçenco-te pudesse recomeçar tudo de novo.
O sol já nasceu. Mas para mim existe sempre a escuridão permanente da minha sombra a velar pelo meu corpo morto. Uma sombra que à laia da imaginação procura levantar-me desta cama fétida, deixando-me sentado na borda do nosso leito. Olho em volta e vejo tudo o que era teu, tudo o que era meu, tudo o que era nosso. As coisas todas remechidas pelo meu desespero fazem-me verter lágrimas amargas. O estado deplorável deste quarto enoja-me e quero sair.

- Preciso preparar o barco.

Hoje o dia está bom para ver como estão as velas. Notei que ainda ontem, quando vinha para terra, uma fenda abriu-se. É preciso que volte a selá-la. É preciso que fique como nova. Tudo o que é velho tem de ser renovado...
O meu pobre barco. Tão só como eu, esquecido nesta sombria praia. Tem o casco endurecido pelo tempo, mas é de qualidade; há-de durar até eu morrer.

- Que pena eu tenho de não ter um filho.

O mastro já foi substituído... partui-se numa viagem em que andei sei comer por três dias. O grande mastro... é lá que penduro a minha vela. É lá que dou largas ao vento e digo que são horas de partir.

- Pena não ter um filho...

Subo para o barco e parto para longe... quero afogar-me no mais longe oceano da solidão, juntar-me aos seres marinhos que tantas vezes me chamam de longe. Quero chocar contra um rochedo, esquecer tudo o que tinha. Quero deixar para trás a minha vida.
Lanço-me aos remos e ouço já a voz dessas mulheres encantadoras chamando por mim. Ouço a sua voz chamando-me, chamando a minha mulher. Dou o mais que posso até elas... preciso de estar com a minha amada, nem que tenha que ir aos infernos preciso de estar com ela novamente. Os seres do mar clamam todos o nem dela...

- Vem ter comigo... leva-me até ti...

Toda a sinfonia do mar leva-me londe... para um mundo que não conheço. As estrelas acendem-se mas não são as mesmas que eu conhecia. Aparecem seres mágicos...

- Onde estás?...

Procuro em todo o lado, reviro o mar e não encontro. Parece que me deixaram essas vozes celestiais. Deixam-me sempre só... sempre só... sou um ser solitário, um bicho que deseja esquecer o passado e partir em busca do futuro. Falam comigo mas eu não compreendo. Passam pessoas pela superfície do mar e afogam-se mas quando eu tento ir atrás delas, elas fogem-me. Seres marinhos espreitam pelo lado do casco. Sempre que os tento ver eles fogem. Tento entoar uma música para os chamar. Não percebo o que dizem, falam uma límpida língua cristalina, tão límpida que a minha parece-lhes agressiva demais. Pergunto-lhe pela minha amada...

- Onde estarás...

Os seres que estão à minha volta riem-se e dançando afastam-se. Fico novamente sozinho e ouço outras vozes cristalinas diferentes das anteriores. O mar torna-se frio, gelado e negro. Toda a sua negrura irradia do fundo e vejo-me a levitar no ar...
As estrelas cercam-me por todos os lados e eu flutuo na imensidão do espaço negro do universo. As vozes calam-se e sinto-me novamente sozinho. Penso em ti...


A minha viagem prossegue em rumo ao desconhecido, procurando encontrar-te...
Sem nada à minha volta o meu corpo delira num extase de energia e, apesar de remar à imenso tempo, as forças não me falham. Sinto que estou cada vez mais perto de ti e isso me basta... Sinto-me tão determinado a encontrar-te que nenhuma tempestade poderia abalar o meu propósito.
Toda a tempestade é apenas uma chuvinha no meu ânimo. Todas as vagas são brincadeiras de uma criança pequena.

- Penso em ti...

Nenhuma baleia, com a sua monstruosa boca poderia engolir-me. Mesmo no fundo do seu estômago, no mais interno dos seus intestinos em arranjaria forças para sair e voltar ao meu propósito.

Thursday, November 18, 2004

Dança Vertical

Voar...
Todo o meu ser se invade de uma sensação estranha quando em dias como este pego no meu corpo e arranco-o à monotonia. Não é complicado dizer-lhe para ir fazer exercício físico; até é uma coisa que ele gosta, mas por vezes não calha a usá-lo um pouco mais.
Por entre um lençol pendurado no tecto, o meu corpo ondula e faz o que quer, brincando ao som de uma música qualquer. A minha mente mantém-se desperta, aliás não posso cair ou arrisco-me a ter aquela temível sensação que é a dor.
A dor retira-me do alto, acaba com o meu sonho de liberdade que não consigo alcançar da minha triste sina. Pudera eu viver permanentemente nesse mundo vertical, onde tudo tem ainda beleza e nada mais pediria. Toda a minha liberdade é derramada naquele instante, todo o meu ser explode em magia e se alarga para além do físico, psicológico, para além de tudo o que imagino.
Mesmo com o sonho a cumprir, o tremendo esforço que faço leva-me a regressar à realidade e, enquanto ouço ainda uma música a terminar, vou descendo suavemente até pousar no solo. Até regressar àquela sala preta onde me encontro e voltar de seguida para o mundo real. Parece impressionante como todo o eu se sente desprotegido perante o choque com a realidade.

Wednesday, November 17, 2004

Um monólogo talvez

Mulher enlutada:
Estas lágrimas que derramo sobre o teu corpo deixaram-me seca por dentro. Já não como, já durmo, não sinto o ardor da presença do teu corpo deitado ao lado do meu. A tua presença, ainda que na mesma cama onde ambos dormíamos, está fria. Não a consigo sentir... A tua pele não é mais que um rumor da minha tristeza ainda por sarar. O teu corpo deixou o meu completamente só, entregue a si próprio num mundo que ainda não conheço bem. A tua presença protegia-me enquanto a sentisse presente, forte como uma fera. O teu olhar alcançava os meus inimigos e agora não consigo mais esconder deles o meu temor. O teu amor deixou-me completamente vazia de outras sensações e, depois de me teres roubado tudo o que era deixaste-me. Não me perguntes o que sinto aqui junto ao teu corpo que se vai transformando em cinza porque nem mesmo eu sei o que sinto. O meu cérebro quer chorar mas os meus olhos negam-lhe essa possibilidade. Nada mais quero que o retorno da tua vida, da minha vida, dessa vida que tanto me roubaste. O que choro já não são lágrimas; essas já se foram e o que ficou foi apenas uma corrente de sangue a brotar destes olhos cansados de chorar.

Homem derrotado:
A guerra onde andava já não tem mais para me oferecer. As balas disparadas já não encontram senão corpos mortos espalhados pelo chão. Os disparos ainda persistentes dos que se lançam a largá-los não são mais que o retinir do passado ainda tão presente na nossa cabeça. Ouço a aproximação dos meus adversários mas a sua presença não me incomoda. Sou imune a todas as derrotas. A guerra quue por mim passou nada tem de belo, nada tem de monstruoso, apenas um leve e dolente sinal de que podem morrer homens com o passar dos tempo. As balas que saem dos canhões, espingardas, os mísseis são largadas de imaginação de certas pessoas, é a sua tentativa de roubarem a vida a milhentos outros seres. Ainda assim deixo-me ficar aqui, tão perto da minha morte com uma perna a sangrar e a outra cansada de tanto andar. Não desisto da minha missão, apenas me resignei à evidente situação em que nos encontramos, não vencemos, a guerra há muito que já acabou e nós teimamos em a tornar definitiva. Estou sentado, definhando, esperando talvez a ajuda humana dos meus inimigos ou que sabe, a redenção.

Contactos

Hoje ligo para várias pessoas e os contactos que faço são todos impessoais. As linhas de telefone, os mail e conversas pela internet nada mais são que uma abstracção do verdadeiro prazer de se conversar com gente. Aquele pequeno prazer que é uma pessoa sentar-se numa cadeira num sítio qualquer com um café em cima da mesa e com uma ou mais pessoas à sua volta falando connosco vem sendo substituído pelo vício de andar com um portátil atrás e a tomarmos o nosso café sozinhos.
Não há nada que me encha mais o ser que estar falando com mais pessoas cara a cara, mesmo sendo inverso, a conversa faz-nos esquecer o frio e aconchega-nos a alma. O roteiro das conversas é variado e somos obrigados a meter mais conversa para quebrar um silêncio que se instala.
Imaginem o que seria (e não estaremos muito longe disso) se no mundo todas as conversas fossem feitas por computador. Uma pessoa não coviviria mais com outras e seria obrigada a andar com um computador atrás até mesmo para pedir o café. O cenário, apesar de decadente, mostra-nos o quão estamos dependentes do contacto com as outras pessoas, quando conhecemos alguém por um meio de comunicação e gostamos de falar com essa pessoa, temos a tendêcia para querermos estar ao vivo e a cores. Mesmo com as pessoas que conhecemos e falamos por net, não é a mesma coisa. As saudades nunca são apagadas por um mail.

Tuesday, November 16, 2004

Morrer dormir... é belo como dizr que pomos fim aos mil males que são herança da carne. Hamlet de Shakespear. Muitas pessoas vêm-me a escrever coisas melancólicas ou mesmo tristes e pensam que estou triste. Não, nada disso, apenas acordei com elas na cabeça e precisam de sair.
Hoje, por exemplo, ao passar na rua deparo com um monte enorme de folhas e só me apetecia deitar-me em cima delas e deixar-me abandonar ao paraíso do sonho. Fiquei um bom tempo a mirá-las e não conseguia deixar de pensar que bom seria deitar-me em cima delas. O outono teima e deixar-nos sós, pelo menos comigo, no entanto ainda dura e copntinuará até que eu me lembre de deixar a minha melancolia de parte e ir em busca da minha felicidade

Monday, November 15, 2004

o mundo é carne e nós dentro dele

de volta às pequenas coisas

uma bola quadrada atravessa a rua mesmo à minha frente. Um enorme elefante cor-de-rosa encontra-se entre mim e a pessoa com quem tenho um encontro marcado na minha agenda. Em eléctrico atropela um homem à frente de uma multidão e toda a gente fica a olhar. Tudo isto é banal, tudo isto é a nossa vida.

de volta às pequenas coisas

uma bola quadrada atravessa a rua mesmo à minha frente. Um enorme elefante cor-de-rosa encontra-se entre mim e a pessoa com quem tenho um encontro marcado na minha agenda. Em eléctrico atropela um homem à frente de uma multidão e toda a gente fica a olhar. Tudo isto é banal, tudo isto é a nossa vida.

Thursday, November 11, 2004

O Homem que via os Homens Morrer - Parte 5

1789
1812
1853
1899
1912


Fartei-me da má vida e decidi viver de forma mais digna para alguém que tinha toda a eternidade à sua frente. Tentei enterrar o passado como fizeram com as duas pessoas que mais amava. As lágrimas que havia chorado estavam marcadas na minha face e era preciso limpá-las. Já havia passado tempo suficiente para chorar os mortos. Era tempo de sermos nós mesmos a viver a vida; e como não a poderia recusar, decidi voltar a viver.
Andei pela Europa à procura de oportunidades e encontrei várias. Quando arranjei dinheiro suficiente rumo em direcção à América, na altura não sabia, mas o barco em que rumava era muito famoso e famoso continuou após o seu naufrágio, falo do Titanic. Neste barco entro como uma pessoa vulgar que havia aproveitado uma oportunidade para ir para a América, lugar onde se oferecia emprego.
A minha estadia foi muito conturbada, aliás não gostei nada da viagem, uma vez que dormíamos mais de vinte pessoas onde deveriam dormir somente doze. O ar era completamente irrespirável, ao contrário da zona dos ricos. No meu caso, a viagem foi um período de grande melancolia uma vez que não pude entrar como marinheiro (o mar sempre esteve presente na minha vida de imortal) o que foi uma pena. Assim que senti um encosto um pouco grande a um icebergue temi o pior. Naquele barco ninguém estava ciente da velocidade a que íamos, eu conhecia bem demais barcos para o saber…
O acidente foi uma junção de vários acasos que resultaram na morte de milhares de pessoas que tinham pago, algumas quase a sua própria vida, para procurar uma vida melhor num novo continente.
Quando toda aquela gente encheu o mar lutando desesperadamente por um lugar num dos botes que voltou atrás, eu encontrava-me no meio do mar gelado. Faltavam-me quase todas as forças e não conseguia chamar a atenção. Ainda assim, por mero acaso, o bote passa perto de mim e eu entro nele. Quase toda a gente estava morta ou sem hipótese de sobreviver, mesmo que cuidassem deles. Foi para mim uma das experiências que me marcou mais foi ver aquelas pessoas ali, boiando como estátuas de cera, com as suas caras esbranquiçadas, lábios pálidos de morte e eu ali vivo, sempre vivo… Não consegui deixar de lançar lágrimas ao mar durante quase toda a viagem até ao novo continente. Os olhos permaneciam nublados e sem cor, a minha voz afofava-se como os corpos deixados no mar, o meu pensamento estava muito distante. Porque é que o destino fazia isto com estas pessoas; muitas delas não tinham qualquer mancha de pecado, ao contrário de mim.
Muito se disse e se fez quando chegámos à América. Ofereceram-me óptimas oportunidades de emprego e a possibilidade de uma vida mais calma; não era isto, no entanto o que eu queria e passados alguns anos de espera paciente alisto-me no exército. Algum tempo depois começa a primeira Guerra Mundial na qual participei. Vaguei entre cadáveres e pessoas em estado de semi-vida; isto porém passava-me ao lado. Estava ali e ajudava quem podia, outros abandonava-os à sua sorte, por vezes nada podia fazer.
Aprendi que a guerra é mesmo isso, deixar o que de animal existe dentro de nós e soltá-lo contra os outros. Não é que fosse diferente do que era, mas a uma proporção muito maior. O sangue corria nas ruas como se fosse chuva a escorrer, os corpos das pessoas por vezes pareciam carne triturada. Pensava por vezes para mim próprio porque faziam os humanos isto… não conseguia compreender. Deixavam de ser humanos…


Acima de tudo eu era pior do que eles. Havia morto várias pessoas por vingança e não lhes dera qualquer hipótese de se arrependerem. Seria bom que o nosso mundo pudesse existir sem isso.
Talvez tenha sido um imortal a ensinar aos mortais a vingança e a arte da guerra, ou talvez todos nós não somos mais que animais ferozes até para com eles próprios. Talvez estejamos todos enganados acerca da nossa inteligência…
Sinto-me assustado, no sítio onde me encontro ouço passos, escuto vozes… Sinto como que um inimigo presente, encostado às minhas costas pronto para me esfaquear. Não temo morrer mas sinto que o lugar onde me encontro engana. Os passos que ouço podem estar tanto perto como longe, as pessoas que não vejo podem estar escondidas. Quem sabe se não saberão que sou imortal.
A tinta da minha caneta treme. EU DEVERIA ESTAR CONFIANTE. Não deveria ter medo de morrer, sou eterno… Mas ainda assim tenho uma costela humana, ainda sou humano. Ainda posso sentir medo, sentir o mundo à minha volta e tentar ser livre da minha maldição. Eu deveria ser mais eu próprio.



A morte das pessoas à minha volta deixaram já de fazer conta na lista interminável de pessoas que via morrer, a guerra afastou-me de vez do mundo demasiado vivo e decidi parar um pouco e esperar o resto dos tempos.
Após uma condecoração pelos meus feitos na guerra, um presidente de um país qualquer pediu-me para o ajudar em algumas questões de estado relacionadas com os negócios estrangeiros e as relações internacionais. Uma oportunidade destas é sempre bem vinda e, apesar dos meus feitos não serem aqui descritos por uma questão de segredo, devo dizer que ajudei bastante esse país a estabilizar certas relações com outros países e a conseguir um maior apoio para outra guerra que havia de vir alguns anos depois.
O emprego no governo que consegui ajudou-me a arranjar dinheiro para a última fase da minha vida, a aposentação. Com esse dinheiro arranjei uma casa onde ninguém me viria aborrecer e esperava o passar dos tempos calmamente. Sabia muito bem que demoraria muito tempo e que teria de fazer alguma coisa entretanto. Ainda assim precisava de tempo para mim…


Sinto pessoas à minha volta. Apesar da minha segurança em não morrer, não posso nunca deixar que descubram que EU sou imortal. Os mortais podem ficar a saber que existem imortais ou pensarem que isso é só fantasia de algumas pessoas, mas a verdade é que não podemos deixar que nos descubram a nós próprios.
Este século em que me encontro é bastante bom para uma pessoa se esconder entre os milhões de pessoas que se passeiam pelo mundo. Ninguém repara em ninguém e nós passamos despercebidos. Possivelmente cada pessoa já deve ter falado com um de nós mas nunca o soube. Nós somos um mundo inferior, um mundo que tem de ser escondido do próprio mundo para segurança deste.



A minha vida na bela casa que arranjei foi bastante calmante e o tempo passou sem grandes novidades. A certa altura tive como que um rápido instinto de fugir daquela casa. Ninguém poderia saber que eu estava ali há muito tempo. Tinha de viajar novamente.
A minha última fuga foi no mínimo curiosa. Aconteceu numa noite de Natal quando me dei conta de um estranho ruído na rua, alguém a anunciar uma coisa. Percebo em pouco tempo que anunciava um circo. A minha primeira reacção foi de ternura, nunca tinha ido a nenhum e surgiu a estranha ideia de que deveria tentar ser criança novamente, sentir aquilo que poderia ter sentido para todo o sempre que era a ingenuidade, o estar em todo o lado como uma criança. Queria ser criança novamente esquecer o que havia feito e ter aquela inocência que só elas têm. Queria sentir que tinha um futuro à minha espera.
Resolvi sair de casa e ir ao circo. Deixei quase tudo o que tinha em casa, levando apenas algum dinheiro (a única coisa que em junção com o amor movem o mundo). Entrei para o espectáculo e sendo aquele circo bastante pobre, não foi algo de magnânimo. Gostei… Senti o que queria sentir.
Queria mais…
Sempre mais…


Alguém abriu uma porta. Não posso continuar. Porque é que me interrompem assim… É a história da minha vida, não a posso escrever? Ninguém tem esse direito? Neste momento sito como se fosse perseguido por alguma polícia de estado por andar a fazer coisas ilegais. Na verdade eu pratiquei acções que um dia deverão ser julgadas, a minha cabeça ficará no prato de uma balança à espera que decidam que destino me darão.
A porta volta a fechar-se e começo a brincar neste labirinto que com a pessoa que entrou. Percebo que trás algo nas mãos mas não sei o que é. A primeira coisa que faço é trancar a porta de forma que não possa sair.
Escrevo frases tipo: estou aqui, anda mais um pouco, não me vês, à tua direita… brinco com ele até ele se cansar. Está tão assustado como eu estava.
Vejo-o olhar para um espelho. Que faz ele? Está a ler o que escrevi… Tenho que sair dali o mais depressa possível e ainda não acabei a minha obra. Precisava de um pouco mais de tempo



A minha decisão foi meter-me numa das carrinhas e partir com eles para onde fossem. Escolhi uma carrinha que estava cheia de fatos para os espectáculos. Para mim a sensação de estar várias horas fechado naquele espaço minúsculo com um fato de palhaço a olhar para mim com um sorriso falso foi…


Não sei o que fazer. Talvez tenha que o matar… Ele não me pode ver. Ele já sabe que sou e não posso deixar que o diga a mais ninguém.


Onde ia?... No sorriso de palhaço. Aquele terrível sorriso. Não consigo perceber como é que gostei daquele sorriso quando o vi em palco. Neste momento ele estava a tornar a minha situação desesperante. Queria sair dali o mais depressa possível…
Começava a arrepender-me de me ter enfiado logo naquela carrinha. Não deveria ter deixado a minha casa, as minhas coisas.


O que trás na mão percebo-o eu agora, é uma varinha de mágico. Para mim aquele homem era perigoso. Os seus poderes poderiam ser mais que os que imaginava. Os truques que fazia poderiam ser uma mera ilusão do que verdadeiramente ele era. Comecei a pensar seriamente numa maneira de o aniquilar antes que ele me aniquilasse a mim.


Assim que a caravana parou eu mudei de posto, no entanto quando saio, o palhaço tenta vir atrás de mim… parecia que me queria agarrar…
Saio o mais depressa que podia e afasto-me um pouco tentando confundir-me com a multidão de pessoas que vinha ver a montagem. Dentro em pouco, agora com um fato diferente pergunto a uma das pessoas do circo se poderia ajudar na montagem da estrutura. Eles aceitam a minha ajuda e começo a trabalhar.
O dia vai longo e pelo meio do trabalho vejo as pessoas que vi no espectáculo de forma bem diferente: um palhaço que andava a gritar com uma bailarina, uma bailarina que não era a pessoa mais sensível, um mágico que pouco dizia, aliás nem um sorriso esboçava, um homem que levantava pesos mas que era a pessoa com mais vertigens daquele grupo. Diverti-me a tentar identificar quem era quem no espectáculo. Foi complicado uma vez que cada pessoa usava uma máscara, eram pessoas que mentiam a si próprias o que queriam ser. Falei com alguns deles perguntando se faziam o que queriam e todos me disseram que queriam algo de melhor. Haviam participado em alguns festivais de circo mas isso havia sido há bastante tempo. Agora restava-lhes fazer aqueles espectáculos e tentar sobreviver. As mãos de alguns deles estavam bastante calejadas pelo tempo e comparava com as minhas que apesar de terem mais anos eram muito mais lisas.

Wednesday, November 10, 2004

o Homem que via os Homens Morrer - Parte 4

Em África nunca deixei muito de mim. Sempre foi um continente que me enojou bastante e as pessoas nunca me receberam muito bem; aquelas pessoas de pele mais escura nunca me inspiraram muita confiança, os seus olhos sempre me olharam como se quisessem ter algo que tinha. Nunca me questionei a fundo se saberiam os pretos que eu era imortal…
Ainda que imortal, nunca o destino deixou de me pregar partidas. Quando o barco que comandava foi ao fundo consegui nadar até quase ao limite das minhas forças para as costas de África onde me esperavam quatro negros escondidos no meio da selva. Assim que escurece, eles, aproveitando o seu tom de pele encaminham-se para mim e dentro em pouco sou capturado e levado para uma tribo. Nessa tribo, diga-se de passagem, ninguém topou a minha cara e fui quase amaldiçoado quando ao mesmo tempo que me trouxeram, um grupo de guerreiros chega também trazendo más notícias para a comunidade. Quase me quiseram castigar, mas por sorte o mago da tribo vem a correr dizendo que me tinham de soltar e enxotar da tribo pois eu trazia má sorte para todos eles.
A forma como me levaram dali foi no mínimo caricata, uma vez que traziam atrás de mim paus arder. Correndo pelo meio da selva afugentaram-me para o interior da selva, correndo, encaminhando-me para onde queriam que fosse e caso me apanhassem queimavam-me a pele. Por fim chego ao que penso serem os limites do seu território e eles afastam-se. Durante a noite percorro um pouco aquele matagal mas os olhos pesam-me e dentro em pouco paro um pouco para dormir.
No dia seguinte acordo completamente desnorteado. Tento orientar-me pelo sol. Seria difícil descobrir um caminho de regresso a algum local que conhecesse e fosse bem recebido, assim sendo opto por rumar em direcção à costa.
Tudo me correu bem não fosse o facto de estar no limite das minhas forças e ainda não ter comido nada. Tento encontrar algo mas a sorte não me sorri e tento a todo o custo chegar à praia onde poderiam ter chegado alguns dos produtos que tinha a bordo do navio. Eis que dois dias depois de chegar à costa africana atinjo a praia. A alegria que senti quando voltei a ver o mar foi imensa, tão grande como o próprio mar. Procuro um pouco de comida mas a verdade é que me deveria ter afastado um pouco mais do local onde tinha chegado e os mantimentos não se encontrariam perto.
A minha sorte é que por ser imortal não preciso de me preocupar muito com o morrer de fome, o que me poderia acontecer era ficar bastante doente, nunca morrer. Para mim essas portas nunca estiveram perto. As soluções para os meus problemas encontram-se sempre na paciência. Basta-me esperar um pouco para que os problemas se resolvam e enquanto espero… sei lá… aguento.


Uma das coisas que mais me entristece é o facto de não ter o risco de morrer… As soluções para todos os problemas caem do céu sem que tenha que fazer muito por elas. Isso dá-me um sentimento de moleza em relação a tudo o que me acontece e, por vezes, as minhas tentativas desesperadas de arriscar a minha vida nada mais me dão que uma certeza de que sou imortal.
Entristece-me o facto de todas as pessoas que conheço deixarem de existir e eu, não sendo como elas, não espere encontrá-las novamente. Eu, mais que ninguém poderia fazê-lo uma vez que os anos não passam por mim.


Consigo apanhar um barco e decido que devo regressar à terra onde está o meu filho. Assim que chego, a mulher que tomava conta dele depara-se comigo e vem-me dizer para desaparecer da vida do rapaz. De princípio não percebo, mas ela diz-me que ele, ao saber quem era eu decidiu amaldiçoar-me. Não esperava que me recebesse muito bem, mas talvez com o tempo a coisa se fosse compondo, no entanto via agora que a mulher o tinha colocado contra mim de propósito. Não sabia muito bem quais eram as suas intenções, mas desconfiava que o quisesse para ela.
Saio furiosamente dali e deambulo pelas ruas á procura de algo com que passar o tempo. Uma coisa que ela não me poderia impedir de fazer era de o ver á distância. Ao percorrer uma das ruelas mais nojentas daquele lugar um prostituta vem ter comigo fazendo-me elogios acerca do meu aspecto musculado. Digo-lhe que não tenho dinheiro mas ela faz-me uma proposta: passava comigo a noite se eu no dia seguinte lhe acabasse com um homem que a tinha posto em maus lençóis.
Rumámos em direcção ao quarto onde ela atendia os desejos mais íntimos dos seus clientes a troco de algum dinheiro. Ela desapertou-me a camisa e atirou-a para longe. De seguida despiu-se e empurrou-me para a cama. O seu corpo não era nada de especial, tinha os seios um pouco descaídos, mas para uma mulher de ruas pobres não estava mal cuidada.
Desapertou-me as calças e, muito docemente tirou-as de junto ao meu corpo. Pela primeira vez na minha vida sentia-me despido. Parecia que tinha passado uma eternidade desde que havia nascido, mas ainda assim, mesmo que me tenha despido muitas vezes, nunca me havia sentido como agora. Parecia que o meu corpo não estava a inflamar como me havia acontecido nas vezes anteriores. Pensava para dentro de mim que precisava de procurar alguma peça de roupa.
Ela sabia tratar bem de um homem pois em pouco tempo o meu sexo estava completamente direito à espera de alguma oferta mais tentadora da parte dela. Ela surpreendeu-me ao colocar-se nas posições mais inacreditáveis que uma pessoa possa imaginar. Penso que também ela estava desesperada. O homem que queria mandar matar deveria ter feito algo contra ela que ainda hoje não faço ideia o que seria.


Poderá parece infantil, mas acontece-nos que a imortalidade nos dá pouco tempo para sentirmos as coisas mais simples. Sabendo que não morremos, procuramos de tudo para desafiar a nossa imortalidade, um pouco como as pessoas musculadas procuram desafiar os outros para braços-de-ferro até encontrarem alguém à sua medida. O mesmo acontecia comigo, só que em vez de procurar outros para desafios, eu mesmo me punha a desafiar a minha imortalidade e esquecia de sentir as coisas mais simples.
Deverá ser por sentir as coisas mais simples que os mortais sabem aproveitar melhor a vida que nós. Existem por aí muitos imortais rondando várias ruas e escondendo-se entre bebidas; até mesmo eu andei assim pelas ruas de volta de uma garrafa de vinho. Nunca conheci nenhum outro imortal mas sei que eles existem pois a divindade que me deu a imortalidade disse-me que outros como eu andavam por aí. Sei que nunca os vou encontrar pois não pertencemos a uma ceita que tem um símbolo secreto gravado ou que temos alguma forma de nos reconhecermos.
Sempre que sentimos alguma coisa tão simples como o estar nu, ficávamos como que impotentes perante o poder e a força das sensações. Gostava de ser mortal para poder aproveitar melhor os meus dias como se fossem os últimos.


Na manhã que se seguiu ao meu encontro com aquela prostituta, levanto-me e já ela se encontrava sentada num banco retirando a sua maquilhagem. Perguntou-me se precisava de me lavar. Como não disse nada ela ofereceu-se para lavar os restos que pingavam do meu sexo devido à noite que havíamos passado.
A sua casa de banho era repugnante; aliás tudo nesta terriola era repugnante, mas aquela divisão era o cúmulo. Da banheira viam-se algumas baratas saindo e foi lá que ela me colocou. Abriu a torneira e um fluxo de água fria escorreu pelo meu corpo. Como ela não resistia ao meu corpo, retirou a roupa que havia vestido havia pouco tempo. Encostou o seu corpo ao meu e espalhou um pouco de sabão pelos dois corpos. As gotas de água que caíam eram como que lágrimas de duas pessoas amarguradas. As pernas dela enrolavam-se nas minhas e em pouco tempo, tal como toda a excitação havia começado, também havia acabado. Esfregou um pouco mais de sabão pela minha pele e em especial pelo meu sexo e saiu primeiro.
Aquela mulher apenas se preocupava em arranjar alguém que lhe fizesse um favor. O que me pedia não era muito, mas as represálias de tudo o que me pedia eram pesadas. Arriscava-me a não poder voltar a ver o meu filho.
Com as indicações que ela me havia dado vou a um bar e encontro um homem que se parece muito com o da descrição da mulher. Era mais ou menos da minha altura, bem parecido se bem que não fosse tão forte. Dirijo-me a ele e pergunto-lhe se estaria interessado num negócio de milhões. Que teria ele a ver com isso? Muito simples, haviam-me informado que eras bom nesse género de trabalhos. O teu lucro seria metade do valor que me pagassem pelo trabalho…
Ele veio comigo até uma rua que me parecia deserta e aí inventei a história de um trabalho de contrabando. Não foi complicado deixá-lo interessado e dentro em pouco o seu interesse foi completo a ponto de me perguntar para quando seria o trabalho. Digo-lhe que ainda para aquele dia à tarde. Ele aceita de imediato.
Umas horas depois aparece no local combinado. Eu já o esperava com um saco de pano numa das mãos. Ele aproximou-se e enquanto ele pegava no saco dei uma volta ao seu corpo e prendi o seu pescoço com os meus braços. Ele tentou livrar-se daquele aperto de todas as formas mas eu erguia-o de forma bastante firme. A sua cara começava a avermelhar e a respiração a falhar, faltava pouco. Uns segundos depois afastei-me daquele lugar e arranjei forma de sair daquela terra.


Regressei a Portugal e decidi demorar-me uns quantos tempos lá. Sempre encontrei nesta gente um repouso… Por entre a mesquinhice havia um lado bom e previsível em toda a gente. Sabia sempre o que fariam.
Quando recuperei, decidi regressar à terra onde havia deixado o meu filho e ao chegar, recebo a notícia de que se encontrava morto. O tempo que havia passado fora haviam-lhe retirado a sua vida e nada mais lhe restava que um corpo morto dentro de um caixão no fundo de um cemitério. Nesse momento desejei enterrar-me, fazer uma cova no mesmo sítio onde havia sido sepultado e pedir a alguém que me enterrasse. Sei que ninguém o faria, mas era o que mais desejava. Ainda pensei em ir ao cemitério e fazer um buraco até encontrar o seu caixão, abria-o e ficaria junto a ele, deitado como ele estaria, chorando-o. Esperaria que as minhas lágrimas lhe dessem mais uns momentos de vida, mas sabia que tudo isso era inútil. Além disso se ficasse junto a ele todo esse tempo, as pessoas que passassem no cemitério começariam a fazer uma história em torno da minha pessoa e dentro em pouco chegariam à conclusão que seria imortal. Fiz o que sempre soube fazer: fugir…


Desapareci por uns tempos, andei pelas ruas meio moribundo, bêbado a maior parte do tempo esperando que o mundo acabasse de um momento para o outro. Só que o mundo era mais teimoso que eu e os anos foram-se passando.

Tuesday, November 09, 2004

O Homem que Via os Homens Morrer - Parte 3

15
90
143
315
597
900
1250
1641


Viajei a bordo de um barco negreiro que regressava a Portugal após vários anos de ausência. Toda a gente se encontrava com um sentimento que não consigo descrever pois nunca o encontrei com mais ninguém que com os portugueses que conhecera. Chamavam-lhe saudade. Viajava acompanhando os vários marinheiros que me contavam os seus episódios e eu contáva-lhes os meus, se bem que ocultásse certos aspectos como a data… O passsar do tempo nas alturas em que falava da minha vida era como um penar, sentia que já estava a viver há demasiado tempo.
As histórias saíam ao sabor do ondular do mar. Apesar de andarem no mar há anos, sentiam por ele um fascínio. O navergar… Eram curiosos estes homens, senti carinho por eles assim que saí das florestas tropicais. Entrei em Portugal completamente desconhecido, e deveria sair de lá da mesma forma. Esse país sempre foi para mim um refúgio; também teve um aspecto curioso, como os homens andavam vários anos no mar, as suas mulheres ficavam muito tempo sozinhas por vezes para sempre. Era por causa disso que existiam naquela altura muitas mulheres a oferecerem-se aos novos visitantes do seu país. Era um delírio para elas quando um estranjeiro chegava, faziam-se logo ao piso e, como se não bastasse, aos domingos íam todas empertigadas à missa. Em Portugal conheci mais mulheres que em qualquer outro lugar na Terra. As minhas passagens por esse país foram, no entanto, sempre breves; não queria estragar aquele recanto “exótico”.
Numa das minhas saídas de Portugal embarco num barco onde vejo, pela primeira vez nas minhas viagens, uma mulher embarcando. Trajava um fato que lhe cobria o corpo da cabeça aos pés dando-lhe uma grande presença. Todos os homens daquele barco anseavam falar com ela, mas quaisquer tentativas saíam falhadas pois mantinha-se sempre fechada sobre si mesma. Dirigimo-nos do porto de Sagres para Lisboa. Nesse porto ela entra num outro barco e eu, movido por um estranho desejo, sou forçado a entrar para o mesmo barco e a rumar em direcção a norte até à Escandinávia. Nesse barco ela era dona e senhora, era o seu barco e as suas feições masculinas sobressaíam ao dar ordens e a mandar os marinheiros trabalhar e fazer o que deveria ser feito. Soube pouco depois que ela tratava também de contrabando, um aspecto que despertou a minha atenção uma vez que nada mais me restava que arriscar a minha vida, ver se o perigo me motivava a continuar a viver.
Quando soube dos seus negócios dirigi-me a ela dizendo que sabia dos trabalhos que fazia com o seu barco, fiz-lhe um pouco de chantagem para que ganhásse a sua atenção, o que correu como esperava. Desta forma poderia perguntar-lhe se estaria interessada nos meus serviços. Disse-me que teria de testar as minhas qualidades para saber com quem trabalhava. Fiz todos os testes e disse-me que estava aceite. No entanto tive de fazer um juramento no qual, em circunstância alguma, deveríamos denúnciar os outros companheiros. O segredo desta forma mantinha-se mesmo que as coisas corressem mal, o tráfico manter-se-ia. Assim que chegámos ao nosso destino o frio e nosso trabalho saudáram-nos com carinho e as horas passavam de forma normal. Não fosse um inspector aparecer e tudo correria na perfeição; tinha havido um rumor de que um barco que entraria naquele porto vinha fazer contrabando. O inspector surgiu numa altura em que parte das coisas já tinham ido mas o que restava não deixava dúvidas do que andávamos a fazer. Decido atrasar o inspector com conversas e, como não reagia, ponho-me à pancada. Sendo ele um pouco para o forte foi difícil não ficar sem mazelas, mas a verdade é que a minha imortalidade me dava uma segurança especial que poderia usar contra ele. Fazendo malabarices com o meu corpo consigo atirá-lo ao chão e fugir. O meu destino era um molhe do porto mas o inspector saca de uma arma que mantivera escondida e acerta-me no momento em que mandava um mergulho. Caio na água que em breve começou a ficar um pouco vermelha. Entretanto perco os sentidos.
Quando acordo a primeira coisa que vejo, ainda que um pouco vaga é a mulher do barco. Ela assim que me sente acordar acalenta-me e diz que vaguei dois dias na corda bamba da vida. Tive pena de não lhe dizer que nunca poderia morrer, mas era meu objectivo não o revelar a ninguém, mesmo que me estivesse a apaixonar por essa pessoa. Disse-me que estávamos a bordo e que havíamos conseguido deixar tudo o que tínhamos a deixar. Receberamos uma recompensa maior pelo risco que havíamos corrido. Pagaram muito bem, negócios assim valem sempre a pena é por isso que gosto de negociar com eles.
O nosso destino agora era regressar a Portugal para reabastecer e arranjar nova ripulação para um novo barco. Queria que continuássemos os dois juntos, os dois como companheiros enriqueceríamos tanto que não mais teríamos de trabalhar para o resto das nossas vidas. Eu queria, ela também e, com aquela proposta, o nosso amor revela-se.


Imensas foram as viagens que fiz com ela, inensos também os perigos; desde canibais a tempestades, falta de comida e doenças, até houve um dia que estávamos num barco com um aspecto tal que julgavam que as pessoas a bordo estavam completamente mortas. A minha maior alegria surge no momento em que ela me revela que há uns meses que já não lhe corria o sangue mensal, que deveria estar grávida. Os dias que se seguiram foram de uma alegria monumental. Tinha um sorriso capaz de dar a volta ao mundo, de abraçar todas as pessoas que encontrasse, mas estávamos no meio do mar, no meio do nada.
Tive responsabilidades acrescidas com a gravidez, tinha de gerir o barco e os meus conhecimentos de barcos nunca haviam sido muito profundos, no entanto ela ainda me dava uma ajuda.
A certa altura percorríamos nós o Oceano Índico quando adoeceu. Estávamos a vários dias de qualquer costa e ela piorava a cada hora que passava. Temia pela saúde, mas principalmente, pelo nosso filho; o período de gravidez já ia avançado e temia que ela o pudesse perder. Os dias passavam e o meu desespero aumentava, acordava de manhã com qualquer ruído pensando que fosse ela a pedir-me ajuda. Passados dois dias já ficava todo o tempo ao lado dela tentando manter-me inutilmente acordado, a certa altura não aguentava e os meus olhos acabavam por se fechar e adormecia. Dentro em pouco, no entanto, acordava, não conseguia dormir por muito tempo.
Os dias foram passando penosamente e ela começava a melhorar. Comia mais e nada mais eu tinha em mente que voltar a terra para que pudesse dar à luz. Chegáramos por fim a uma terra acolhedora que nos acolheu e arranjámos um médico que nos ajudasse. Bastaram-nos três dias em terra para que tudo se resolvesse, não esperava eu, da maneira que foi.
Para mim, a terra foi-se tornando a fonte das minhas lágrimas e a certa altura nada mais queria que sair dela o mais depressa possível. A terra ia apenas buscar mantimentos e tripulação, assim como dinheiro para de novo embarcar. Os poucos de dias que passava em terra era com alguma mulher que me fizesse esquecer de tudo o que acontecera aquando do nascimento do meu filho. Entre os gemidos da mulher que amava ouvia-se a voz do médico dando indicações para que ela continuasse. Suava demais, os seus músculos estavam tão tensos que nada os deformaria, a sua vontade de morrer ganhava caminho.
A certa altura ouvi o chorar de uma criança, algo que de imediato me emocionou. Tinha surgido um ser neste mundo que tinha muito de mim. Esperava que não demais. Mas entre alegrias eis que uma notícia me chocou logo a seguir, “a mãe não resistiu”. De imediato chorei o mais que pude; nesse momento desejei ser um deus para que pudesse mudar o destino das coisas, no entanto eu, um ser imortal, que por uma vez enganara os próprios deuses, nada conseguia naquele momento. Desejei poder morrer para fugir de tudo aquilo.
Ela era a única mulher que jamais amara, ela era especial. Sê forte, tens de aguentar, não há-de ser nada, logo arranjas outra, tens sempre o teu filho, ninguém me confortava de verdade, precisava dela para que saíssemos daquele sítio e ela me aconchegasse numa ca-ma, precisava que ela viesse ter comigo e dissesse que estava tudo bem, já passou…


Sou um derrotado. A mim, que já muito vivi, nada me surpreende. Os presentes que a vida me tinha a dar revestem-se de novos embrulhos, mas são sempre os mesmos. Espero sempre pelo amanhã. Só que o amanhã que desejo nunca mais vem. Espero mais uns dias e nada me faz esquecer todas as tristezas por que passei. À medida que o tempo passa as pessoas, por muito diferentes que sejam, são sempre as mesmas e eu sento-me a olhá-las. Sempre que penso nos momento que passei com todas as pessoas que conheci, vejo agora, que nada mais que desperdício de tempo foram. Estão agora todas mortas e eu a passar por cima dos seus cadáveres. Não tenho mais lágrimas para chorar; todas as que chorei já secaram e as que não chorei não sairão. Tudo é duro demais para mim e vejo-me a ser perseguido pelos meus próprios fantasmas. Desejo esquecer que eu próprio existo...


Perdi o desejo de continuar a viver. A partir daquele momento esquecia-me de quem realmente era e abandonei-me ao estado de humano puro. Desejava acabar com a minha vida mas existia sempre um obstáculo a ultrapassar: a minha imortalidade. Para além disso tinha sempre o meu filho… Essa criança que havia deixado aos cuidados de uma mulher que me pareceu de confiança e que nada mais me pediu que uma noite de grande prazer com ela.
Levo-a para a cama e apalpo-a toda, esperando encontrar nela aquela mulher que amava, mas não encontrava. O meu sexo ainda assim endureceu e levou-me a percorrer o corpo dela em busca de um lugar muito especial, encontrando-o perfurou todas as barreiras físicas que existiam à sua frente. Foi uma noite de sexo violento e no final estava deitado na cama, completamente cansado enquanto ela, com o seu sexo ainda a escorrer esperma abandonou aquele quarto e foi para sua casa. Sempre que voltava a sua casa para ver o meu pequerrucho e dava qualquer coisa para que ela o pudesse alimentar, ela pedia-me sempre mais uma noite, dizia que eu a fazia encher de prazer como mais ninguém e a verdade é que também eu desejava voltar a estar com ela. Encontrávamo-nos os dois num quarto que ela arrendava e passados poucos minutos já nada da nossa roupa restava senão no meio do chão.
Entre as penetrações violentas que fazia vinha-me muitas vezes à cabeça a cara da mulher que amei, uma recordação que tentava a todo o custo reprimir penetrando cada vez mais fundo nela. O sexo para mim era como que um consolo, uma forma de me esquecer do mundo, das pessoas que conhecera e de todas as mágoas que me rodeavam. No final da noite tanto eu como ela estaríamos cansados, mas mesmo assim desejosos da próxima. Os dias que se seguiam eram passados a ver o meu rapaz que crescia a olhos vistos para quem só o via de quando a quando. Via-o a partir de uma janela, sempre com o olhar atento da mulher que cuidava dele.
Um dia porém não resisti e fui ter com o miúdo com uma prenda nas mãos. Ele não me conhecia e a suposta mãe havia-lhe dito para não falar com estranhos. Eu mandei-o chamar a mãe. Enquanto lá foi eu deixei o presente junto à porta e afastei-me. Quanto regressaram e deram com o presente, a mulher que tomava conta dele disse-lhe que era eu e, a partir daquele momento, nunca mais voltei a falar com o miúdo. Sempre que vinha a terra, via-os de longe. Eles não me viam mas penso que sabiam que andava por perto.


Arranjei uma tripulação e rumei para o Índico. Sabia de um negócio que me daria milhões para gastar quando voltasse a terra. Para além da tripulação colhi o tesouro que havia acumulado do meu último saque. Tencionava juntá-lo numa das inúmeras ilhas desertas do pacífico no meio do mar. Não esperava no entanto que esta viagem fosse a minha última viagem como capitão do meu navio.
Passáramos o Cabo das Boa Esperança haviam seis dias e estávamos de rastos, os nossos músculos desfaleciam em virtude de nos cruzarmos com uma tempestade logo depois do cabo. Teríamos de parar em terra para repousar, mas quando o tentámos deparamos com um surto de peste no navio. Um dos marinheiros encontrava-se já afectado e dentro em pouco morreria. Atirámo-lo ao mar, desejando que fosse o único. Esperámos no mar mais dois dias e nesses dias outros três casos manifestam-se. O nosso barco estava condenado. Eu não corria qualquer perigo, no entanto temia pela minha tripulação, podia ser imortal mas não conseguia levar um barco para terra só com a minha força.
O inevitável acontece: uma semana passara desde que apareceram o primeiro caso de peste e surge-nos no horizonte um barco pirata. Esperávamos que não nos tivesse visto, mas a verdade é que quando deparámos com ele, já se dirigia para nós. Demos vários avisos de que havia peste a bordo e quando se deram conta que o que dizíamos era verdade, começam a bombardear-nos.
Não foram precisos muitos tiros uma vez que não nos podíamos mexer por falta de pessoal e vento, no entanto gostaram de ficar a ver-nos a afunda e cada um dos piratas tentou mandar ele o tiro que nos faria afogar o barco para todo sempre.
Com o barco iam também os tesouros que eu tinha acumulado, as provisões que nos poderiam servir para mais uns dias até que toda a minha tripulação estivesse morta e o barco se encontrasse próximo de terra. Com estas esperanças deitadas ao mar, nada mais me restava fazer que deixar-me flutuar no mar. As ondas aconchegavam o meu corpo ao mesmo tempo que engoliam o corpo dos meus camaradas. Deslizei ao sabor do mar por vários dias, sentia-me muito fraco mas sabia que não morreria. Essa não era a minha esperança, mas a minha certeza.
Boiando atinjo as costa costas da África Oriental. Decido perder pouco tempo por cá, apenas o tempo necessário para arranjar transporte para um outro lugar que me conviesse, dizendo de outra forma, Europa.


A minha esperança era em esperar que um dia voltasse a ser completamente humano, que pudesse morrer e esperar por uma vida depois da morte; só que esta minha esperança não dava provas de se vir a concretizar, a minha vida caminha para o abismo e com ela vão todos os seres humanos. Eu nunca quis ser imortal...Percorri os caminhos mais imprevisíveis da história dos Homens, ninguém se deu conta de que eu estive com vários reis, que estive no meio de várias decisões importantes, que percorri várias guerras e a tudo sobrevivi. Neste momento, tão só como me encontro, apenas me resta esperar pelo fim dos tempos.

O Homem que Via os Homens Morrer - Parte 2

Eu não sabia se desejava ou não ser imortal e o facto de tomarem uma decisão por mim irritou-me. Novamente me revoltei contra ela e ela nada disse. Fugi. Fugi. Fugi fugi fugi fugi fugifugifugifugi... nada mais tinha a fazer ali.
Ao correr fui dar à casa dos meus verdadeiros pais e dou com um casal à entrada. Dirigi-me até eles e, dando-se conta de que se aproximava alguém levantaram-se para virem ter comigo. Não me reconheceram e vendo que me convidam a ficar com eles um bocado aceito e falou-se de várias coisas. A conversa prolongava-se e a certa altura não conseguia mais esconder o meu profundo ódio por eles. Começaram a amedrontar-se mas antes que reagissem, já os meus dedos se encontravam cravados nas suas gargantas fazendo brotar veios de sangue que levavam a vida destes velhos para bem longe de onde se encontravam os seus corpo agora mortos. Em pouco chegaram os meus irmãos vindos do trabalho do campo. Ao verem vendo o meu raivoso aspecto, com os dedos ainda a escorrer sangue e os pais mortos, pegaram nas suas alfaias e dirigiram-se a mim. Nada tinha a esconder, nada tinha a perder. A vida tinha-a com abundância e nada ma tiraria. Foi assim que me dirigi a eles e, apesar de me terem atingido com uma forquilha, a minha ira era bem mais forte que tudo isso.
Tal como havia morto os meus pais, matei naquele instante os meus irmãos. Terminada a chacina, apareceu um cão preto que se entristeceu com tudo o que se havia passado. Lambia as lágrimas dos mortos e olhava para mim com um ar de Tu-és-o-culpado! Não suportava aquilo... Afastava-me e o cão seguia-me. Ordenei que se afastasse. Corri para me afastar dele, mas ele continuava sempre a seguir-me. Parei, no limite das minhas forças e ele veio ter comigo lambendo as minhas lágrimas. Não queria que ele continuasse a seguir-me e, por várias vezes tentei fugas mas ele vinha sempre atrás do meu rasto, lembrando-me que havia morto os meus próprios pais.
Alguns dias depois tive de aceitar o facto de que este cão estava condenado a seguir-me, andei pela floresta e o meu companheiro deparou-se com um odor e chamou-me, indicando para que o seguisse. Vou com ele em direcção a um lugar que me parecia conhecido, pareceu-me familiar. A minha casa. O meu lar. Este era o meu espaço. Dirijo-me até à casa que me acolheu em criança mas assim que me aproximei ela apagou-se, como se de uma miragem se tratasse. Na minha cabeça só me vinha uma ideia: aquela figura celestial. Queria destruir todos os vestígios da minha vida passada.
Revolta...


Na minha cabeça começo a magicar todo o género de artifícios que conhecia e arranjava de modo a tentar matar a presença mais nefasta na minha vida. Os meus dias são passados a conspirar contra a pessoa que havia salvo a minha vida, mas ao mesmo tempo mais ma havia roubado. A sua vida tinha que ficar nas minhas mãos. Passava os dias a conspirar contra ela. Ficava muito tempo sem comer, sem ver ninguém, pensando apenas no único propósito da minha vida presente: matar uma entidade divina.
Não sei se ela sabia ou não da minha conspiração, a verdade é que quando apareço defronte dela, assustei-a. Havia conseguido um meio de iludir toda uma imensidade de vigilantes do mundo divino e havia-me colocado ao mesmo nível de um deus. Para mim, nessa altura poderia fazer o que quisesse a qualquer deus como se de um humano se tratasse.


As várias peripécias por que passei para a defrontar não as posso revelar aos mortais. O importatnte é que consegui o que queria, um duelo. Defronte um para o outro, ela nada podia fazer que não aceitar o desafio. Foi o que fez e a sua honra havia de ser recompensada. Ela havia dito que era uma proeza enorme encontrar-me ali com ela, uma vez que tal não era humanamente possivel. Mas eu não era mais humano. No entanto ela ensinar-me-ia que não era só a condição de mortal que fazia dos seres humanos, aquilo que são.
Encontrávamo-nos num local que ela havia escolhido. Uma espécie de ermo ocupado por vegetação escassa e onde não encontraria qualquer tido de vida animal. Tudo ali parecia silêncio absoluto. Havia dito que nunca pensaria que o duelo que previra fosse mesmo acontecer. Para mim tudo era possível, ou pelo menos assim o esperava. Com a passagem de um trovão começou o combate; cada um de nós tinha o seu ponto forte que, por mera coincidência, era apenas o ponto fraco do outro. Eu tinha força bruta e ela magia. Enquanto que eu queria apanhá-la, ela queria afastar-me. O combate era em tudo desigual e foi por isso que tivemos de parar.
Todo o cansaço que se abatia sobre nós era como que o peso do céu para o Titã Atlas. Entre ofegos e respirações ela me disse que era inevitável que nos voltássemos a ver; nunca esperaria é que nos encontrássemos daquela forma. Era muito duro…
Devo dizer que foi com muita honra que ela decidiu o duelo entre nós. Nenhum ficou a ganhar nem a perder. Levou-me ao limite daquele lugar, um espaço para a frente do qual nada se via, era um vazio. Os humanos, disse-me, têm muitas limitações. A primeira das quais é a sua capacidade de morrer. Vêm isso muitas vezes como uma forma de transformação e levam a vida na esperança de um dia voltar a viver de alguma forma, ou com a sua alma ou com o seu corpo; a esperança torna-os mais humanos. Nós somos simplesmente imortais e, como tal, não vivemos na esperança, vivemos. É essa a principal diferença entre nós e eles. Houve já seres humanos que tiveram poderes semelhantes aos dos deuses mas nunca os souberam potenciar, ou não os deixaram, vivem numa sociedade mais complexa que a nossa; nós vivemos de forma isolada, não precisamos muito do serviço dos outros.
Saímos daquele sítio e regressámos às nossas vidas; eu nunca mais a voltaria a ver e penso que ela também não me quereria voltar a ver. Regressei para onde poderia viver de forma mais fiel ao que era. Eu não era um deus, mas um humano imortal, precisava de viver em sociedade, precisava de viver de esperança, precisava de viver… precisava…


Os anos para mim foram passando mas nunca fui muito bafejado pela sorte, o facto de se querer ocultar que se era imortal, implicava não ter um pouso fixo neste enorme planeta. Andei por tantos lados quantos me ofereciam, encenava cenas da minha morte, até contratava pessoas, em segredo para me assassinar. Foi desta forma que andei por todo o mundo, viajando, enriquecendo e gastando o que acumulava até à minha próxima encenação da minha morte ou ao meu desaparecimento.


Penso nos dias de hoje, que o meu tempo de vida está para terminar. Já vi demasiado e os meu olhos estão cansados de ver miséria e morte. Tudo se está a consumar a si próprio e nada mais espero desta minha vida que testemunhar a ruína do nosso mundo. A morte encontra-se a cada esquina, mas ela nunca me encontra. Porque será?Espero e espero pacientemente o passar dos dias. Quem quer ser imortal nunca deve ter pensado que há medida que o tempo passa, os dias vão ficando cada vez mais longos, as horas cada vez maiores e o pior de tudo é que a vida deixa de nos surpreender. O caminho que percorri, a nenhum lado me conduziu, algo que dentro de mim deveria ser humano foi convertido em gelo, o meu coração gelava e precisava de alguém que o aquecesse. Esse alguém no entanto continuava sem aparecer... até quando...