Tuesday, November 09, 2004

O Homem que Via os Homens Morrer - Parte 3

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Viajei a bordo de um barco negreiro que regressava a Portugal após vários anos de ausência. Toda a gente se encontrava com um sentimento que não consigo descrever pois nunca o encontrei com mais ninguém que com os portugueses que conhecera. Chamavam-lhe saudade. Viajava acompanhando os vários marinheiros que me contavam os seus episódios e eu contáva-lhes os meus, se bem que ocultásse certos aspectos como a data… O passsar do tempo nas alturas em que falava da minha vida era como um penar, sentia que já estava a viver há demasiado tempo.
As histórias saíam ao sabor do ondular do mar. Apesar de andarem no mar há anos, sentiam por ele um fascínio. O navergar… Eram curiosos estes homens, senti carinho por eles assim que saí das florestas tropicais. Entrei em Portugal completamente desconhecido, e deveria sair de lá da mesma forma. Esse país sempre foi para mim um refúgio; também teve um aspecto curioso, como os homens andavam vários anos no mar, as suas mulheres ficavam muito tempo sozinhas por vezes para sempre. Era por causa disso que existiam naquela altura muitas mulheres a oferecerem-se aos novos visitantes do seu país. Era um delírio para elas quando um estranjeiro chegava, faziam-se logo ao piso e, como se não bastasse, aos domingos íam todas empertigadas à missa. Em Portugal conheci mais mulheres que em qualquer outro lugar na Terra. As minhas passagens por esse país foram, no entanto, sempre breves; não queria estragar aquele recanto “exótico”.
Numa das minhas saídas de Portugal embarco num barco onde vejo, pela primeira vez nas minhas viagens, uma mulher embarcando. Trajava um fato que lhe cobria o corpo da cabeça aos pés dando-lhe uma grande presença. Todos os homens daquele barco anseavam falar com ela, mas quaisquer tentativas saíam falhadas pois mantinha-se sempre fechada sobre si mesma. Dirigimo-nos do porto de Sagres para Lisboa. Nesse porto ela entra num outro barco e eu, movido por um estranho desejo, sou forçado a entrar para o mesmo barco e a rumar em direcção a norte até à Escandinávia. Nesse barco ela era dona e senhora, era o seu barco e as suas feições masculinas sobressaíam ao dar ordens e a mandar os marinheiros trabalhar e fazer o que deveria ser feito. Soube pouco depois que ela tratava também de contrabando, um aspecto que despertou a minha atenção uma vez que nada mais me restava que arriscar a minha vida, ver se o perigo me motivava a continuar a viver.
Quando soube dos seus negócios dirigi-me a ela dizendo que sabia dos trabalhos que fazia com o seu barco, fiz-lhe um pouco de chantagem para que ganhásse a sua atenção, o que correu como esperava. Desta forma poderia perguntar-lhe se estaria interessada nos meus serviços. Disse-me que teria de testar as minhas qualidades para saber com quem trabalhava. Fiz todos os testes e disse-me que estava aceite. No entanto tive de fazer um juramento no qual, em circunstância alguma, deveríamos denúnciar os outros companheiros. O segredo desta forma mantinha-se mesmo que as coisas corressem mal, o tráfico manter-se-ia. Assim que chegámos ao nosso destino o frio e nosso trabalho saudáram-nos com carinho e as horas passavam de forma normal. Não fosse um inspector aparecer e tudo correria na perfeição; tinha havido um rumor de que um barco que entraria naquele porto vinha fazer contrabando. O inspector surgiu numa altura em que parte das coisas já tinham ido mas o que restava não deixava dúvidas do que andávamos a fazer. Decido atrasar o inspector com conversas e, como não reagia, ponho-me à pancada. Sendo ele um pouco para o forte foi difícil não ficar sem mazelas, mas a verdade é que a minha imortalidade me dava uma segurança especial que poderia usar contra ele. Fazendo malabarices com o meu corpo consigo atirá-lo ao chão e fugir. O meu destino era um molhe do porto mas o inspector saca de uma arma que mantivera escondida e acerta-me no momento em que mandava um mergulho. Caio na água que em breve começou a ficar um pouco vermelha. Entretanto perco os sentidos.
Quando acordo a primeira coisa que vejo, ainda que um pouco vaga é a mulher do barco. Ela assim que me sente acordar acalenta-me e diz que vaguei dois dias na corda bamba da vida. Tive pena de não lhe dizer que nunca poderia morrer, mas era meu objectivo não o revelar a ninguém, mesmo que me estivesse a apaixonar por essa pessoa. Disse-me que estávamos a bordo e que havíamos conseguido deixar tudo o que tínhamos a deixar. Receberamos uma recompensa maior pelo risco que havíamos corrido. Pagaram muito bem, negócios assim valem sempre a pena é por isso que gosto de negociar com eles.
O nosso destino agora era regressar a Portugal para reabastecer e arranjar nova ripulação para um novo barco. Queria que continuássemos os dois juntos, os dois como companheiros enriqueceríamos tanto que não mais teríamos de trabalhar para o resto das nossas vidas. Eu queria, ela também e, com aquela proposta, o nosso amor revela-se.


Imensas foram as viagens que fiz com ela, inensos também os perigos; desde canibais a tempestades, falta de comida e doenças, até houve um dia que estávamos num barco com um aspecto tal que julgavam que as pessoas a bordo estavam completamente mortas. A minha maior alegria surge no momento em que ela me revela que há uns meses que já não lhe corria o sangue mensal, que deveria estar grávida. Os dias que se seguiram foram de uma alegria monumental. Tinha um sorriso capaz de dar a volta ao mundo, de abraçar todas as pessoas que encontrasse, mas estávamos no meio do mar, no meio do nada.
Tive responsabilidades acrescidas com a gravidez, tinha de gerir o barco e os meus conhecimentos de barcos nunca haviam sido muito profundos, no entanto ela ainda me dava uma ajuda.
A certa altura percorríamos nós o Oceano Índico quando adoeceu. Estávamos a vários dias de qualquer costa e ela piorava a cada hora que passava. Temia pela saúde, mas principalmente, pelo nosso filho; o período de gravidez já ia avançado e temia que ela o pudesse perder. Os dias passavam e o meu desespero aumentava, acordava de manhã com qualquer ruído pensando que fosse ela a pedir-me ajuda. Passados dois dias já ficava todo o tempo ao lado dela tentando manter-me inutilmente acordado, a certa altura não aguentava e os meus olhos acabavam por se fechar e adormecia. Dentro em pouco, no entanto, acordava, não conseguia dormir por muito tempo.
Os dias foram passando penosamente e ela começava a melhorar. Comia mais e nada mais eu tinha em mente que voltar a terra para que pudesse dar à luz. Chegáramos por fim a uma terra acolhedora que nos acolheu e arranjámos um médico que nos ajudasse. Bastaram-nos três dias em terra para que tudo se resolvesse, não esperava eu, da maneira que foi.
Para mim, a terra foi-se tornando a fonte das minhas lágrimas e a certa altura nada mais queria que sair dela o mais depressa possível. A terra ia apenas buscar mantimentos e tripulação, assim como dinheiro para de novo embarcar. Os poucos de dias que passava em terra era com alguma mulher que me fizesse esquecer de tudo o que acontecera aquando do nascimento do meu filho. Entre os gemidos da mulher que amava ouvia-se a voz do médico dando indicações para que ela continuasse. Suava demais, os seus músculos estavam tão tensos que nada os deformaria, a sua vontade de morrer ganhava caminho.
A certa altura ouvi o chorar de uma criança, algo que de imediato me emocionou. Tinha surgido um ser neste mundo que tinha muito de mim. Esperava que não demais. Mas entre alegrias eis que uma notícia me chocou logo a seguir, “a mãe não resistiu”. De imediato chorei o mais que pude; nesse momento desejei ser um deus para que pudesse mudar o destino das coisas, no entanto eu, um ser imortal, que por uma vez enganara os próprios deuses, nada conseguia naquele momento. Desejei poder morrer para fugir de tudo aquilo.
Ela era a única mulher que jamais amara, ela era especial. Sê forte, tens de aguentar, não há-de ser nada, logo arranjas outra, tens sempre o teu filho, ninguém me confortava de verdade, precisava dela para que saíssemos daquele sítio e ela me aconchegasse numa ca-ma, precisava que ela viesse ter comigo e dissesse que estava tudo bem, já passou…


Sou um derrotado. A mim, que já muito vivi, nada me surpreende. Os presentes que a vida me tinha a dar revestem-se de novos embrulhos, mas são sempre os mesmos. Espero sempre pelo amanhã. Só que o amanhã que desejo nunca mais vem. Espero mais uns dias e nada me faz esquecer todas as tristezas por que passei. À medida que o tempo passa as pessoas, por muito diferentes que sejam, são sempre as mesmas e eu sento-me a olhá-las. Sempre que penso nos momento que passei com todas as pessoas que conheci, vejo agora, que nada mais que desperdício de tempo foram. Estão agora todas mortas e eu a passar por cima dos seus cadáveres. Não tenho mais lágrimas para chorar; todas as que chorei já secaram e as que não chorei não sairão. Tudo é duro demais para mim e vejo-me a ser perseguido pelos meus próprios fantasmas. Desejo esquecer que eu próprio existo...


Perdi o desejo de continuar a viver. A partir daquele momento esquecia-me de quem realmente era e abandonei-me ao estado de humano puro. Desejava acabar com a minha vida mas existia sempre um obstáculo a ultrapassar: a minha imortalidade. Para além disso tinha sempre o meu filho… Essa criança que havia deixado aos cuidados de uma mulher que me pareceu de confiança e que nada mais me pediu que uma noite de grande prazer com ela.
Levo-a para a cama e apalpo-a toda, esperando encontrar nela aquela mulher que amava, mas não encontrava. O meu sexo ainda assim endureceu e levou-me a percorrer o corpo dela em busca de um lugar muito especial, encontrando-o perfurou todas as barreiras físicas que existiam à sua frente. Foi uma noite de sexo violento e no final estava deitado na cama, completamente cansado enquanto ela, com o seu sexo ainda a escorrer esperma abandonou aquele quarto e foi para sua casa. Sempre que voltava a sua casa para ver o meu pequerrucho e dava qualquer coisa para que ela o pudesse alimentar, ela pedia-me sempre mais uma noite, dizia que eu a fazia encher de prazer como mais ninguém e a verdade é que também eu desejava voltar a estar com ela. Encontrávamo-nos os dois num quarto que ela arrendava e passados poucos minutos já nada da nossa roupa restava senão no meio do chão.
Entre as penetrações violentas que fazia vinha-me muitas vezes à cabeça a cara da mulher que amei, uma recordação que tentava a todo o custo reprimir penetrando cada vez mais fundo nela. O sexo para mim era como que um consolo, uma forma de me esquecer do mundo, das pessoas que conhecera e de todas as mágoas que me rodeavam. No final da noite tanto eu como ela estaríamos cansados, mas mesmo assim desejosos da próxima. Os dias que se seguiam eram passados a ver o meu rapaz que crescia a olhos vistos para quem só o via de quando a quando. Via-o a partir de uma janela, sempre com o olhar atento da mulher que cuidava dele.
Um dia porém não resisti e fui ter com o miúdo com uma prenda nas mãos. Ele não me conhecia e a suposta mãe havia-lhe dito para não falar com estranhos. Eu mandei-o chamar a mãe. Enquanto lá foi eu deixei o presente junto à porta e afastei-me. Quanto regressaram e deram com o presente, a mulher que tomava conta dele disse-lhe que era eu e, a partir daquele momento, nunca mais voltei a falar com o miúdo. Sempre que vinha a terra, via-os de longe. Eles não me viam mas penso que sabiam que andava por perto.


Arranjei uma tripulação e rumei para o Índico. Sabia de um negócio que me daria milhões para gastar quando voltasse a terra. Para além da tripulação colhi o tesouro que havia acumulado do meu último saque. Tencionava juntá-lo numa das inúmeras ilhas desertas do pacífico no meio do mar. Não esperava no entanto que esta viagem fosse a minha última viagem como capitão do meu navio.
Passáramos o Cabo das Boa Esperança haviam seis dias e estávamos de rastos, os nossos músculos desfaleciam em virtude de nos cruzarmos com uma tempestade logo depois do cabo. Teríamos de parar em terra para repousar, mas quando o tentámos deparamos com um surto de peste no navio. Um dos marinheiros encontrava-se já afectado e dentro em pouco morreria. Atirámo-lo ao mar, desejando que fosse o único. Esperámos no mar mais dois dias e nesses dias outros três casos manifestam-se. O nosso barco estava condenado. Eu não corria qualquer perigo, no entanto temia pela minha tripulação, podia ser imortal mas não conseguia levar um barco para terra só com a minha força.
O inevitável acontece: uma semana passara desde que apareceram o primeiro caso de peste e surge-nos no horizonte um barco pirata. Esperávamos que não nos tivesse visto, mas a verdade é que quando deparámos com ele, já se dirigia para nós. Demos vários avisos de que havia peste a bordo e quando se deram conta que o que dizíamos era verdade, começam a bombardear-nos.
Não foram precisos muitos tiros uma vez que não nos podíamos mexer por falta de pessoal e vento, no entanto gostaram de ficar a ver-nos a afunda e cada um dos piratas tentou mandar ele o tiro que nos faria afogar o barco para todo sempre.
Com o barco iam também os tesouros que eu tinha acumulado, as provisões que nos poderiam servir para mais uns dias até que toda a minha tripulação estivesse morta e o barco se encontrasse próximo de terra. Com estas esperanças deitadas ao mar, nada mais me restava fazer que deixar-me flutuar no mar. As ondas aconchegavam o meu corpo ao mesmo tempo que engoliam o corpo dos meus camaradas. Deslizei ao sabor do mar por vários dias, sentia-me muito fraco mas sabia que não morreria. Essa não era a minha esperança, mas a minha certeza.
Boiando atinjo as costa costas da África Oriental. Decido perder pouco tempo por cá, apenas o tempo necessário para arranjar transporte para um outro lugar que me conviesse, dizendo de outra forma, Europa.


A minha esperança era em esperar que um dia voltasse a ser completamente humano, que pudesse morrer e esperar por uma vida depois da morte; só que esta minha esperança não dava provas de se vir a concretizar, a minha vida caminha para o abismo e com ela vão todos os seres humanos. Eu nunca quis ser imortal...Percorri os caminhos mais imprevisíveis da história dos Homens, ninguém se deu conta de que eu estive com vários reis, que estive no meio de várias decisões importantes, que percorri várias guerras e a tudo sobrevivi. Neste momento, tão só como me encontro, apenas me resta esperar pelo fim dos tempos.

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