| Em África nunca deixei muito de mim. Sempre foi um continente que me enojou bastante e as pessoas nunca me receberam muito bem; aquelas pessoas de pele mais escura nunca me inspiraram muita confiança, os seus olhos sempre me olharam como se quisessem ter algo que tinha. Nunca me questionei a fundo se saberiam os pretos que eu era imortal…
Ainda que imortal, nunca o destino deixou de me pregar partidas. Quando o barco que comandava foi ao fundo consegui nadar até quase ao limite das minhas forças para as costas de África onde me esperavam quatro negros escondidos no meio da selva. Assim que escurece, eles, aproveitando o seu tom de pele encaminham-se para mim e dentro em pouco sou capturado e levado para uma tribo. Nessa tribo, diga-se de passagem, ninguém topou a minha cara e fui quase amaldiçoado quando ao mesmo tempo que me trouxeram, um grupo de guerreiros chega também trazendo más notícias para a comunidade. Quase me quiseram castigar, mas por sorte o mago da tribo vem a correr dizendo que me tinham de soltar e enxotar da tribo pois eu trazia má sorte para todos eles. A forma como me levaram dali foi no mínimo caricata, uma vez que traziam atrás de mim paus arder. Correndo pelo meio da selva afugentaram-me para o interior da selva, correndo, encaminhando-me para onde queriam que fosse e caso me apanhassem queimavam-me a pele. Por fim chego ao que penso serem os limites do seu território e eles afastam-se. Durante a noite percorro um pouco aquele matagal mas os olhos pesam-me e dentro em pouco paro um pouco para dormir. No dia seguinte acordo completamente desnorteado. Tento orientar-me pelo sol. Seria difícil descobrir um caminho de regresso a algum local que conhecesse e fosse bem recebido, assim sendo opto por rumar em direcção à costa. Tudo me correu bem não fosse o facto de estar no limite das minhas forças e ainda não ter comido nada. Tento encontrar algo mas a sorte não me sorri e tento a todo o custo chegar à praia onde poderiam ter chegado alguns dos produtos que tinha a bordo do navio. Eis que dois dias depois de chegar à costa africana atinjo a praia. A alegria que senti quando voltei a ver o mar foi imensa, tão grande como o próprio mar. Procuro um pouco de comida mas a verdade é que me deveria ter afastado um pouco mais do local onde tinha chegado e os mantimentos não se encontrariam perto. A minha sorte é que por ser imortal não preciso de me preocupar muito com o morrer de fome, o que me poderia acontecer era ficar bastante doente, nunca morrer. Para mim essas portas nunca estiveram perto. As soluções para os meus problemas encontram-se sempre na paciência. Basta-me esperar um pouco para que os problemas se resolvam e enquanto espero… sei lá… aguento. Uma das coisas que mais me entristece é o facto de não ter o risco de morrer… As soluções para todos os problemas caem do céu sem que tenha que fazer muito por elas. Isso dá-me um sentimento de moleza em relação a tudo o que me acontece e, por vezes, as minhas tentativas desesperadas de arriscar a minha vida nada mais me dão que uma certeza de que sou imortal. Entristece-me o facto de todas as pessoas que conheço deixarem de existir e eu, não sendo como elas, não espere encontrá-las novamente. Eu, mais que ninguém poderia fazê-lo uma vez que os anos não passam por mim. Consigo apanhar um barco e decido que devo regressar à terra onde está o meu filho. Assim que chego, a mulher que tomava conta dele depara-se comigo e vem-me dizer para desaparecer da vida do rapaz. De princípio não percebo, mas ela diz-me que ele, ao saber quem era eu decidiu amaldiçoar-me. Não esperava que me recebesse muito bem, mas talvez com o tempo a coisa se fosse compondo, no entanto via agora que a mulher o tinha colocado contra mim de propósito. Não sabia muito bem quais eram as suas intenções, mas desconfiava que o quisesse para ela. Saio furiosamente dali e deambulo pelas ruas á procura de algo com que passar o tempo. Uma coisa que ela não me poderia impedir de fazer era de o ver á distância. Ao percorrer uma das ruelas mais nojentas daquele lugar um prostituta vem ter comigo fazendo-me elogios acerca do meu aspecto musculado. Digo-lhe que não tenho dinheiro mas ela faz-me uma proposta: passava comigo a noite se eu no dia seguinte lhe acabasse com um homem que a tinha posto em maus lençóis. Rumámos em direcção ao quarto onde ela atendia os desejos mais íntimos dos seus clientes a troco de algum dinheiro. Ela desapertou-me a camisa e atirou-a para longe. De seguida despiu-se e empurrou-me para a cama. O seu corpo não era nada de especial, tinha os seios um pouco descaídos, mas para uma mulher de ruas pobres não estava mal cuidada. Desapertou-me as calças e, muito docemente tirou-as de junto ao meu corpo. Pela primeira vez na minha vida sentia-me despido. Parecia que tinha passado uma eternidade desde que havia nascido, mas ainda assim, mesmo que me tenha despido muitas vezes, nunca me havia sentido como agora. Parecia que o meu corpo não estava a inflamar como me havia acontecido nas vezes anteriores. Pensava para dentro de mim que precisava de procurar alguma peça de roupa. Ela sabia tratar bem de um homem pois em pouco tempo o meu sexo estava completamente direito à espera de alguma oferta mais tentadora da parte dela. Ela surpreendeu-me ao colocar-se nas posições mais inacreditáveis que uma pessoa possa imaginar. Penso que também ela estava desesperada. O homem que queria mandar matar deveria ter feito algo contra ela que ainda hoje não faço ideia o que seria. Poderá parece infantil, mas acontece-nos que a imortalidade nos dá pouco tempo para sentirmos as coisas mais simples. Sabendo que não morremos, procuramos de tudo para desafiar a nossa imortalidade, um pouco como as pessoas musculadas procuram desafiar os outros para braços-de-ferro até encontrarem alguém à sua medida. O mesmo acontecia comigo, só que em vez de procurar outros para desafios, eu mesmo me punha a desafiar a minha imortalidade e esquecia de sentir as coisas mais simples. Deverá ser por sentir as coisas mais simples que os mortais sabem aproveitar melhor a vida que nós. Existem por aí muitos imortais rondando várias ruas e escondendo-se entre bebidas; até mesmo eu andei assim pelas ruas de volta de uma garrafa de vinho. Nunca conheci nenhum outro imortal mas sei que eles existem pois a divindade que me deu a imortalidade disse-me que outros como eu andavam por aí. Sei que nunca os vou encontrar pois não pertencemos a uma ceita que tem um símbolo secreto gravado ou que temos alguma forma de nos reconhecermos. Sempre que sentimos alguma coisa tão simples como o estar nu, ficávamos como que impotentes perante o poder e a força das sensações. Gostava de ser mortal para poder aproveitar melhor os meus dias como se fossem os últimos. Na manhã que se seguiu ao meu encontro com aquela prostituta, levanto-me e já ela se encontrava sentada num banco retirando a sua maquilhagem. Perguntou-me se precisava de me lavar. Como não disse nada ela ofereceu-se para lavar os restos que pingavam do meu sexo devido à noite que havíamos passado. A sua casa de banho era repugnante; aliás tudo nesta terriola era repugnante, mas aquela divisão era o cúmulo. Da banheira viam-se algumas baratas saindo e foi lá que ela me colocou. Abriu a torneira e um fluxo de água fria escorreu pelo meu corpo. Como ela não resistia ao meu corpo, retirou a roupa que havia vestido havia pouco tempo. Encostou o seu corpo ao meu e espalhou um pouco de sabão pelos dois corpos. As gotas de água que caíam eram como que lágrimas de duas pessoas amarguradas. As pernas dela enrolavam-se nas minhas e em pouco tempo, tal como toda a excitação havia começado, também havia acabado. Esfregou um pouco mais de sabão pela minha pele e em especial pelo meu sexo e saiu primeiro. Aquela mulher apenas se preocupava em arranjar alguém que lhe fizesse um favor. O que me pedia não era muito, mas as represálias de tudo o que me pedia eram pesadas. Arriscava-me a não poder voltar a ver o meu filho. Com as indicações que ela me havia dado vou a um bar e encontro um homem que se parece muito com o da descrição da mulher. Era mais ou menos da minha altura, bem parecido se bem que não fosse tão forte. Dirijo-me a ele e pergunto-lhe se estaria interessado num negócio de milhões. Que teria ele a ver com isso? Muito simples, haviam-me informado que eras bom nesse género de trabalhos. O teu lucro seria metade do valor que me pagassem pelo trabalho… Ele veio comigo até uma rua que me parecia deserta e aí inventei a história de um trabalho de contrabando. Não foi complicado deixá-lo interessado e dentro em pouco o seu interesse foi completo a ponto de me perguntar para quando seria o trabalho. Digo-lhe que ainda para aquele dia à tarde. Ele aceita de imediato. Umas horas depois aparece no local combinado. Eu já o esperava com um saco de pano numa das mãos. Ele aproximou-se e enquanto ele pegava no saco dei uma volta ao seu corpo e prendi o seu pescoço com os meus braços. Ele tentou livrar-se daquele aperto de todas as formas mas eu erguia-o de forma bastante firme. A sua cara começava a avermelhar e a respiração a falhar, faltava pouco. Uns segundos depois afastei-me daquele lugar e arranjei forma de sair daquela terra. Regressei a Portugal e decidi demorar-me uns quantos tempos lá. Sempre encontrei nesta gente um repouso… Por entre a mesquinhice havia um lado bom e previsível em toda a gente. Sabia sempre o que fariam. Quando recuperei, decidi regressar à terra onde havia deixado o meu filho e ao chegar, recebo a notícia de que se encontrava morto. O tempo que havia passado fora haviam-lhe retirado a sua vida e nada mais lhe restava que um corpo morto dentro de um caixão no fundo de um cemitério. Nesse momento desejei enterrar-me, fazer uma cova no mesmo sítio onde havia sido sepultado e pedir a alguém que me enterrasse. Sei que ninguém o faria, mas era o que mais desejava. Ainda pensei em ir ao cemitério e fazer um buraco até encontrar o seu caixão, abria-o e ficaria junto a ele, deitado como ele estaria, chorando-o. Esperaria que as minhas lágrimas lhe dessem mais uns momentos de vida, mas sabia que tudo isso era inútil. Além disso se ficasse junto a ele todo esse tempo, as pessoas que passassem no cemitério começariam a fazer uma história em torno da minha pessoa e dentro em pouco chegariam à conclusão que seria imortal. Fiz o que sempre soube fazer: fugir… Desapareci por uns tempos, andei pelas ruas meio moribundo, bêbado a maior parte do tempo esperando que o mundo acabasse de um momento para o outro. Só que o mundo era mais teimoso que eu e os anos foram-se passando. |
Wednesday, November 10, 2004
o Homem que via os Homens Morrer - Parte 4
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