1789
1812
1853
1899
1912
Fartei-me da má vida e decidi viver de forma mais digna para alguém que tinha toda a eternidade à sua frente. Tentei enterrar o passado como fizeram com as duas pessoas que mais amava. As lágrimas que havia chorado estavam marcadas na minha face e era preciso limpá-las. Já havia passado tempo suficiente para chorar os mortos. Era tempo de sermos nós mesmos a viver a vida; e como não a poderia recusar, decidi voltar a viver.
Andei pela Europa à procura de oportunidades e encontrei várias. Quando arranjei dinheiro suficiente rumo em direcção à América, na altura não sabia, mas o barco em que rumava era muito famoso e famoso continuou após o seu naufrágio, falo do Titanic. Neste barco entro como uma pessoa vulgar que havia aproveitado uma oportunidade para ir para a América, lugar onde se oferecia emprego.
A minha estadia foi muito conturbada, aliás não gostei nada da viagem, uma vez que dormíamos mais de vinte pessoas onde deveriam dormir somente doze. O ar era completamente irrespirável, ao contrário da zona dos ricos. No meu caso, a viagem foi um período de grande melancolia uma vez que não pude entrar como marinheiro (o mar sempre esteve presente na minha vida de imortal) o que foi uma pena. Assim que senti um encosto um pouco grande a um icebergue temi o pior. Naquele barco ninguém estava ciente da velocidade a que íamos, eu conhecia bem demais barcos para o saber…
O acidente foi uma junção de vários acasos que resultaram na morte de milhares de pessoas que tinham pago, algumas quase a sua própria vida, para procurar uma vida melhor num novo continente.
Quando toda aquela gente encheu o mar lutando desesperadamente por um lugar num dos botes que voltou atrás, eu encontrava-me no meio do mar gelado. Faltavam-me quase todas as forças e não conseguia chamar a atenção. Ainda assim, por mero acaso, o bote passa perto de mim e eu entro nele. Quase toda a gente estava morta ou sem hipótese de sobreviver, mesmo que cuidassem deles. Foi para mim uma das experiências que me marcou mais foi ver aquelas pessoas ali, boiando como estátuas de cera, com as suas caras esbranquiçadas, lábios pálidos de morte e eu ali vivo, sempre vivo… Não consegui deixar de lançar lágrimas ao mar durante quase toda a viagem até ao novo continente. Os olhos permaneciam nublados e sem cor, a minha voz afofava-se como os corpos deixados no mar, o meu pensamento estava muito distante. Porque é que o destino fazia isto com estas pessoas; muitas delas não tinham qualquer mancha de pecado, ao contrário de mim.
Muito se disse e se fez quando chegámos à América. Ofereceram-me óptimas oportunidades de emprego e a possibilidade de uma vida mais calma; não era isto, no entanto o que eu queria e passados alguns anos de espera paciente alisto-me no exército. Algum tempo depois começa a primeira Guerra Mundial na qual participei. Vaguei entre cadáveres e pessoas em estado de semi-vida; isto porém passava-me ao lado. Estava ali e ajudava quem podia, outros abandonava-os à sua sorte, por vezes nada podia fazer.
Aprendi que a guerra é mesmo isso, deixar o que de animal existe dentro de nós e soltá-lo contra os outros. Não é que fosse diferente do que era, mas a uma proporção muito maior. O sangue corria nas ruas como se fosse chuva a escorrer, os corpos das pessoas por vezes pareciam carne triturada. Pensava por vezes para mim próprio porque faziam os humanos isto… não conseguia compreender. Deixavam de ser humanos…
Acima de tudo eu era pior do que eles. Havia morto várias pessoas por vingança e não lhes dera qualquer hipótese de se arrependerem. Seria bom que o nosso mundo pudesse existir sem isso.
Talvez tenha sido um imortal a ensinar aos mortais a vingança e a arte da guerra, ou talvez todos nós não somos mais que animais ferozes até para com eles próprios. Talvez estejamos todos enganados acerca da nossa inteligência…
Sinto-me assustado, no sítio onde me encontro ouço passos, escuto vozes… Sinto como que um inimigo presente, encostado às minhas costas pronto para me esfaquear. Não temo morrer mas sinto que o lugar onde me encontro engana. Os passos que ouço podem estar tanto perto como longe, as pessoas que não vejo podem estar escondidas. Quem sabe se não saberão que sou imortal.
A tinta da minha caneta treme. EU DEVERIA ESTAR CONFIANTE. Não deveria ter medo de morrer, sou eterno… Mas ainda assim tenho uma costela humana, ainda sou humano. Ainda posso sentir medo, sentir o mundo à minha volta e tentar ser livre da minha maldição. Eu deveria ser mais eu próprio.
A morte das pessoas à minha volta deixaram já de fazer conta na lista interminável de pessoas que via morrer, a guerra afastou-me de vez do mundo demasiado vivo e decidi parar um pouco e esperar o resto dos tempos.
Após uma condecoração pelos meus feitos na guerra, um presidente de um país qualquer pediu-me para o ajudar em algumas questões de estado relacionadas com os negócios estrangeiros e as relações internacionais. Uma oportunidade destas é sempre bem vinda e, apesar dos meus feitos não serem aqui descritos por uma questão de segredo, devo dizer que ajudei bastante esse país a estabilizar certas relações com outros países e a conseguir um maior apoio para outra guerra que havia de vir alguns anos depois.
O emprego no governo que consegui ajudou-me a arranjar dinheiro para a última fase da minha vida, a aposentação. Com esse dinheiro arranjei uma casa onde ninguém me viria aborrecer e esperava o passar dos tempos calmamente. Sabia muito bem que demoraria muito tempo e que teria de fazer alguma coisa entretanto. Ainda assim precisava de tempo para mim…
Sinto pessoas à minha volta. Apesar da minha segurança em não morrer, não posso nunca deixar que descubram que EU sou imortal. Os mortais podem ficar a saber que existem imortais ou pensarem que isso é só fantasia de algumas pessoas, mas a verdade é que não podemos deixar que nos descubram a nós próprios.
Este século em que me encontro é bastante bom para uma pessoa se esconder entre os milhões de pessoas que se passeiam pelo mundo. Ninguém repara em ninguém e nós passamos despercebidos. Possivelmente cada pessoa já deve ter falado com um de nós mas nunca o soube. Nós somos um mundo inferior, um mundo que tem de ser escondido do próprio mundo para segurança deste.
A minha vida na bela casa que arranjei foi bastante calmante e o tempo passou sem grandes novidades. A certa altura tive como que um rápido instinto de fugir daquela casa. Ninguém poderia saber que eu estava ali há muito tempo. Tinha de viajar novamente.
A minha última fuga foi no mínimo curiosa. Aconteceu numa noite de Natal quando me dei conta de um estranho ruído na rua, alguém a anunciar uma coisa. Percebo em pouco tempo que anunciava um circo. A minha primeira reacção foi de ternura, nunca tinha ido a nenhum e surgiu a estranha ideia de que deveria tentar ser criança novamente, sentir aquilo que poderia ter sentido para todo o sempre que era a ingenuidade, o estar em todo o lado como uma criança. Queria ser criança novamente esquecer o que havia feito e ter aquela inocência que só elas têm. Queria sentir que tinha um futuro à minha espera.
Resolvi sair de casa e ir ao circo. Deixei quase tudo o que tinha em casa, levando apenas algum dinheiro (a única coisa que em junção com o amor movem o mundo). Entrei para o espectáculo e sendo aquele circo bastante pobre, não foi algo de magnânimo. Gostei… Senti o que queria sentir.
Queria mais…
Sempre mais…
Alguém abriu uma porta. Não posso continuar. Porque é que me interrompem assim… É a história da minha vida, não a posso escrever? Ninguém tem esse direito? Neste momento sito como se fosse perseguido por alguma polícia de estado por andar a fazer coisas ilegais. Na verdade eu pratiquei acções que um dia deverão ser julgadas, a minha cabeça ficará no prato de uma balança à espera que decidam que destino me darão.
A porta volta a fechar-se e começo a brincar neste labirinto que com a pessoa que entrou. Percebo que trás algo nas mãos mas não sei o que é. A primeira coisa que faço é trancar a porta de forma que não possa sair.
Escrevo frases tipo: estou aqui, anda mais um pouco, não me vês, à tua direita… brinco com ele até ele se cansar. Está tão assustado como eu estava.
Vejo-o olhar para um espelho. Que faz ele? Está a ler o que escrevi… Tenho que sair dali o mais depressa possível e ainda não acabei a minha obra. Precisava de um pouco mais de tempo
A minha decisão foi meter-me numa das carrinhas e partir com eles para onde fossem. Escolhi uma carrinha que estava cheia de fatos para os espectáculos. Para mim a sensação de estar várias horas fechado naquele espaço minúsculo com um fato de palhaço a olhar para mim com um sorriso falso foi…
Não sei o que fazer. Talvez tenha que o matar… Ele não me pode ver. Ele já sabe que sou e não posso deixar que o diga a mais ninguém.
Onde ia?... No sorriso de palhaço. Aquele terrível sorriso. Não consigo perceber como é que gostei daquele sorriso quando o vi em palco. Neste momento ele estava a tornar a minha situação desesperante. Queria sair dali o mais depressa possível…
Começava a arrepender-me de me ter enfiado logo naquela carrinha. Não deveria ter deixado a minha casa, as minhas coisas.
O que trás na mão percebo-o eu agora, é uma varinha de mágico. Para mim aquele homem era perigoso. Os seus poderes poderiam ser mais que os que imaginava. Os truques que fazia poderiam ser uma mera ilusão do que verdadeiramente ele era. Comecei a pensar seriamente numa maneira de o aniquilar antes que ele me aniquilasse a mim.
Assim que a caravana parou eu mudei de posto, no entanto quando saio, o palhaço tenta vir atrás de mim… parecia que me queria agarrar…
Saio o mais depressa que podia e afasto-me um pouco tentando confundir-me com a multidão de pessoas que vinha ver a montagem. Dentro em pouco, agora com um fato diferente pergunto a uma das pessoas do circo se poderia ajudar na montagem da estrutura. Eles aceitam a minha ajuda e começo a trabalhar.
O dia vai longo e pelo meio do trabalho vejo as pessoas que vi no espectáculo de forma bem diferente: um palhaço que andava a gritar com uma bailarina, uma bailarina que não era a pessoa mais sensível, um mágico que pouco dizia, aliás nem um sorriso esboçava, um homem que levantava pesos mas que era a pessoa com mais vertigens daquele grupo. Diverti-me a tentar identificar quem era quem no espectáculo. Foi complicado uma vez que cada pessoa usava uma máscara, eram pessoas que mentiam a si próprias o que queriam ser. Falei com alguns deles perguntando se faziam o que queriam e todos me disseram que queriam algo de melhor. Haviam participado em alguns festivais de circo mas isso havia sido há bastante tempo. Agora restava-lhes fazer aqueles espectáculos e tentar sobreviver. As mãos de alguns deles estavam bastante calejadas pelo tempo e comparava com as minhas que apesar de terem mais anos eram muito mais lisas.
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