Acordo de manhã ainda o sol não nasceu. O frio desta cama, agora tão só como um deserto, gela-me o corpo. Não tenho a meu lado a sua presença. O seu corpo enquanto vivo aquecia o meu enquanto não era morto.
- Anda, vem deitar-te ao meu lado. Sinto a falta do teu corpo com sabor a mel e estou muito carente.
Depois de morta é que sinto a sua falta. O seu ar sempre tão preocupado quando de madrugada me levantava e ia para o mar, as suas aflições, os seus medo... bem sei que ficava horas acordada rezando, pedindo a Deus que me protegesse do temporal que se havia levantado. Quando chegava, já o sol começava a despertar, ela estava na praia e era a primeira a ir ter com o barco. Antes que saisse do barco beijava-me e tão docemente como nos juntávamos à noite, ela levava-me a terra firme.
A mesma terra que me acolhia era a mesma que a levou para longe de mim.
Morreu passam já três meses e desde então que uma escuridão pesa sobre mim e não mais consigo dormir. Passo noites em claro, vejo os dias com olhos cansados de não dormir, o meu corpo já não trabalha como costumava, é agora muito mais velho, muito mais triste. A dor da minha alma não consegue viver a minha vida.
Um dia pedi-te que se morresse antes de ti, não chorasses. Hoje penso que o que te pedi foi demasiado forte. Eu, ainda que tentando não consigo abafar esta minha dor que tanto pesa sobre o meu cérebro e o esmaga. As minhas lágrimas correm como rios de umas ruínas abandonadas, esses destroços de uma cidade perdida e que não mais voltará a ser reencontrada.
- A minha mulher não morreu...
Queria berrar aos céus, esquecer esta dor e continuar a minha vida. Mas não consigo. Este corpo tem demasiadas lembranças a torturá-lo e as memórias de toda uma vida revolvem o meu ser. Ainda que não quisesse, o que deveria começar por fazer era tirar a esperança de te voltar a ver; talvez dessa forma, esqueçenco-te pudesse recomeçar tudo de novo.
O sol já nasceu. Mas para mim existe sempre a escuridão permanente da minha sombra a velar pelo meu corpo morto. Uma sombra que à laia da imaginação procura levantar-me desta cama fétida, deixando-me sentado na borda do nosso leito. Olho em volta e vejo tudo o que era teu, tudo o que era meu, tudo o que era nosso. As coisas todas remechidas pelo meu desespero fazem-me verter lágrimas amargas. O estado deplorável deste quarto enoja-me e quero sair.
- Preciso preparar o barco.
Hoje o dia está bom para ver como estão as velas. Notei que ainda ontem, quando vinha para terra, uma fenda abriu-se. É preciso que volte a selá-la. É preciso que fique como nova. Tudo o que é velho tem de ser renovado...
O meu pobre barco. Tão só como eu, esquecido nesta sombria praia. Tem o casco endurecido pelo tempo, mas é de qualidade; há-de durar até eu morrer.
- Que pena eu tenho de não ter um filho.
O mastro já foi substituído... partui-se numa viagem em que andei sei comer por três dias. O grande mastro... é lá que penduro a minha vela. É lá que dou largas ao vento e digo que são horas de partir.
- Pena não ter um filho...
Subo para o barco e parto para longe... quero afogar-me no mais longe oceano da solidão, juntar-me aos seres marinhos que tantas vezes me chamam de longe. Quero chocar contra um rochedo, esquecer tudo o que tinha. Quero deixar para trás a minha vida.
Lanço-me aos remos e ouço já a voz dessas mulheres encantadoras chamando por mim. Ouço a sua voz chamando-me, chamando a minha mulher. Dou o mais que posso até elas... preciso de estar com a minha amada, nem que tenha que ir aos infernos preciso de estar com ela novamente. Os seres do mar clamam todos o nem dela...
- Vem ter comigo... leva-me até ti...
Toda a sinfonia do mar leva-me londe... para um mundo que não conheço. As estrelas acendem-se mas não são as mesmas que eu conhecia. Aparecem seres mágicos...
- Onde estás?...
Procuro em todo o lado, reviro o mar e não encontro. Parece que me deixaram essas vozes celestiais. Deixam-me sempre só... sempre só... sou um ser solitário, um bicho que deseja esquecer o passado e partir em busca do futuro. Falam comigo mas eu não compreendo. Passam pessoas pela superfície do mar e afogam-se mas quando eu tento ir atrás delas, elas fogem-me. Seres marinhos espreitam pelo lado do casco. Sempre que os tento ver eles fogem. Tento entoar uma música para os chamar. Não percebo o que dizem, falam uma límpida língua cristalina, tão límpida que a minha parece-lhes agressiva demais. Pergunto-lhe pela minha amada...
- Onde estarás...
Os seres que estão à minha volta riem-se e dançando afastam-se. Fico novamente sozinho e ouço outras vozes cristalinas diferentes das anteriores. O mar torna-se frio, gelado e negro. Toda a sua negrura irradia do fundo e vejo-me a levitar no ar...
As estrelas cercam-me por todos os lados e eu flutuo na imensidão do espaço negro do universo. As vozes calam-se e sinto-me novamente sozinho. Penso em ti...
A minha viagem prossegue em rumo ao desconhecido, procurando encontrar-te...
Sem nada à minha volta o meu corpo delira num extase de energia e, apesar de remar à imenso tempo, as forças não me falham. Sinto que estou cada vez mais perto de ti e isso me basta... Sinto-me tão determinado a encontrar-te que nenhuma tempestade poderia abalar o meu propósito.
Toda a tempestade é apenas uma chuvinha no meu ânimo. Todas as vagas são brincadeiras de uma criança pequena.
- Penso em ti...
Nenhuma baleia, com a sua monstruosa boca poderia engolir-me. Mesmo no fundo do seu estômago, no mais interno dos seus intestinos em arranjaria forças para sair e voltar ao meu propósito.
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