Eu não sabia se desejava ou não ser imortal e o facto de tomarem uma decisão por mim irritou-me. Novamente me revoltei contra ela e ela nada disse. Fugi. Fugi. Fugi fugi fugi fugi fugifugifugifugi... nada mais tinha a fazer ali.
Ao correr fui dar à casa dos meus verdadeiros pais e dou com um casal à entrada. Dirigi-me até eles e, dando-se conta de que se aproximava alguém levantaram-se para virem ter comigo. Não me reconheceram e vendo que me convidam a ficar com eles um bocado aceito e falou-se de várias coisas. A conversa prolongava-se e a certa altura não conseguia mais esconder o meu profundo ódio por eles. Começaram a amedrontar-se mas antes que reagissem, já os meus dedos se encontravam cravados nas suas gargantas fazendo brotar veios de sangue que levavam a vida destes velhos para bem longe de onde se encontravam os seus corpo agora mortos. Em pouco chegaram os meus irmãos vindos do trabalho do campo. Ao verem vendo o meu raivoso aspecto, com os dedos ainda a escorrer sangue e os pais mortos, pegaram nas suas alfaias e dirigiram-se a mim. Nada tinha a esconder, nada tinha a perder. A vida tinha-a com abundância e nada ma tiraria. Foi assim que me dirigi a eles e, apesar de me terem atingido com uma forquilha, a minha ira era bem mais forte que tudo isso.
Tal como havia morto os meus pais, matei naquele instante os meus irmãos. Terminada a chacina, apareceu um cão preto que se entristeceu com tudo o que se havia passado. Lambia as lágrimas dos mortos e olhava para mim com um ar de Tu-és-o-culpado! Não suportava aquilo... Afastava-me e o cão seguia-me. Ordenei que se afastasse. Corri para me afastar dele, mas ele continuava sempre a seguir-me. Parei, no limite das minhas forças e ele veio ter comigo lambendo as minhas lágrimas. Não queria que ele continuasse a seguir-me e, por várias vezes tentei fugas mas ele vinha sempre atrás do meu rasto, lembrando-me que havia morto os meus próprios pais.
Alguns dias depois tive de aceitar o facto de que este cão estava condenado a seguir-me, andei pela floresta e o meu companheiro deparou-se com um odor e chamou-me, indicando para que o seguisse. Vou com ele em direcção a um lugar que me parecia conhecido, pareceu-me familiar. A minha casa. O meu lar. Este era o meu espaço. Dirijo-me até à casa que me acolheu em criança mas assim que me aproximei ela apagou-se, como se de uma miragem se tratasse. Na minha cabeça só me vinha uma ideia: aquela figura celestial. Queria destruir todos os vestígios da minha vida passada.
Revolta...
Na minha cabeça começo a magicar todo o género de artifícios que conhecia e arranjava de modo a tentar matar a presença mais nefasta na minha vida. Os meus dias são passados a conspirar contra a pessoa que havia salvo a minha vida, mas ao mesmo tempo mais ma havia roubado. A sua vida tinha que ficar nas minhas mãos. Passava os dias a conspirar contra ela. Ficava muito tempo sem comer, sem ver ninguém, pensando apenas no único propósito da minha vida presente: matar uma entidade divina.
Não sei se ela sabia ou não da minha conspiração, a verdade é que quando apareço defronte dela, assustei-a. Havia conseguido um meio de iludir toda uma imensidade de vigilantes do mundo divino e havia-me colocado ao mesmo nível de um deus. Para mim, nessa altura poderia fazer o que quisesse a qualquer deus como se de um humano se tratasse.
As várias peripécias por que passei para a defrontar não as posso revelar aos mortais. O importatnte é que consegui o que queria, um duelo. Defronte um para o outro, ela nada podia fazer que não aceitar o desafio. Foi o que fez e a sua honra havia de ser recompensada. Ela havia dito que era uma proeza enorme encontrar-me ali com ela, uma vez que tal não era humanamente possivel. Mas eu não era mais humano. No entanto ela ensinar-me-ia que não era só a condição de mortal que fazia dos seres humanos, aquilo que são.
Encontrávamo-nos num local que ela havia escolhido. Uma espécie de ermo ocupado por vegetação escassa e onde não encontraria qualquer tido de vida animal. Tudo ali parecia silêncio absoluto. Havia dito que nunca pensaria que o duelo que previra fosse mesmo acontecer. Para mim tudo era possível, ou pelo menos assim o esperava. Com a passagem de um trovão começou o combate; cada um de nós tinha o seu ponto forte que, por mera coincidência, era apenas o ponto fraco do outro. Eu tinha força bruta e ela magia. Enquanto que eu queria apanhá-la, ela queria afastar-me. O combate era em tudo desigual e foi por isso que tivemos de parar.
Todo o cansaço que se abatia sobre nós era como que o peso do céu para o Titã Atlas. Entre ofegos e respirações ela me disse que era inevitável que nos voltássemos a ver; nunca esperaria é que nos encontrássemos daquela forma. Era muito duro…
Devo dizer que foi com muita honra que ela decidiu o duelo entre nós. Nenhum ficou a ganhar nem a perder. Levou-me ao limite daquele lugar, um espaço para a frente do qual nada se via, era um vazio. Os humanos, disse-me, têm muitas limitações. A primeira das quais é a sua capacidade de morrer. Vêm isso muitas vezes como uma forma de transformação e levam a vida na esperança de um dia voltar a viver de alguma forma, ou com a sua alma ou com o seu corpo; a esperança torna-os mais humanos. Nós somos simplesmente imortais e, como tal, não vivemos na esperança, vivemos. É essa a principal diferença entre nós e eles. Houve já seres humanos que tiveram poderes semelhantes aos dos deuses mas nunca os souberam potenciar, ou não os deixaram, vivem numa sociedade mais complexa que a nossa; nós vivemos de forma isolada, não precisamos muito do serviço dos outros.
Saímos daquele sítio e regressámos às nossas vidas; eu nunca mais a voltaria a ver e penso que ela também não me quereria voltar a ver. Regressei para onde poderia viver de forma mais fiel ao que era. Eu não era um deus, mas um humano imortal, precisava de viver em sociedade, precisava de viver de esperança, precisava de viver… precisava…
Os anos para mim foram passando mas nunca fui muito bafejado pela sorte, o facto de se querer ocultar que se era imortal, implicava não ter um pouso fixo neste enorme planeta. Andei por tantos lados quantos me ofereciam, encenava cenas da minha morte, até contratava pessoas, em segredo para me assassinar. Foi desta forma que andei por todo o mundo, viajando, enriquecendo e gastando o que acumulava até à minha próxima encenação da minha morte ou ao meu desaparecimento.
Penso nos dias de hoje, que o meu tempo de vida está para terminar. Já vi demasiado e os meu olhos estão cansados de ver miséria e morte. Tudo se está a consumar a si próprio e nada mais espero desta minha vida que testemunhar a ruína do nosso mundo. A morte encontra-se a cada esquina, mas ela nunca me encontra. Porque será?Espero e espero pacientemente o passar dos dias. Quem quer ser imortal nunca deve ter pensado que há medida que o tempo passa, os dias vão ficando cada vez mais longos, as horas cada vez maiores e o pior de tudo é que a vida deixa de nos surpreender. O caminho que percorri, a nenhum lado me conduziu, algo que dentro de mim deveria ser humano foi convertido em gelo, o meu coração gelava e precisava de alguém que o aquecesse. Esse alguém no entanto continuava sem aparecer... até quando...
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