| Esta é a minha história, não é uma história de que me orgulhe, aliás não tenho qualquer prazer em falar acerca de mim, para muitos não devo sequer existir. A caneta que tenho na mão vai escrevendo sobre vidro, vidro… não havia outra coisa? Tenho andado escondido e o vidro foi a única coisa que estava disponível para escrever alguns fragmentos da minha vida, mas lá iremos.
Não pretendo escrever sobre tudo o que se passou comigo, já vivi muito e não teria interesse nem eu quereria muito que soubessem de tudo o que se passou na minha vida. Numa espécie de apresentação não direi sou quem sou e não quero que procurem, a minha identidade deve manter-se secreta a minha identidade e tenho todo o direito a querer alguma privacidade depois do que passei. Aconteça o que acontecer, não desejarei ler o que for escrevendo sobre mim nestes vidros, por isso se faltarem alguns pormenores, desde peço desculpa mas não pretendo rever os meus escritos até porque não estou numa situação muito segura para mim neste momento e rever tudo o que pretendo escrever demoraria bastante tempo. Eu conheci muita gente, a maior parte já morreram e outros morrerão entretanto, todos eles antes de mim. Eu ficarei a ver a morte deles. Vi morrer estrelas de cinema que conhecia, presidentes com quem trabalhei, mulheres com quem passei um tempo (em especial uma delas), vi morrer pessoas em guerras, no mar, até eu próprio matei algumas… O meu passado é escrito para ser esquecido por mim… Nasci no seio de uma família pobre, uma família cujos filhos eram tantos que não havia espaço para meter mais um. Foi assim que nasci, pobre e nu como toda a gente nasce; mas à minha espera não estavam presentes nem alegria, mas um simples pesar, um sentimento de tristeza por terem de fazer o que deveria ser feito: matar o filho que acabava de nascer. Levaram-me para uma floresta e, estando eu a chorar, não tiveram coragem de cometer o infanticídio. Em vez disso abandonaram-me, deixaram-me tão só como haveria de passar o resto dos meus dias. Estaria condenado a morrer não fosse uma figura celestial ter passado perto e ter ouvido o meu choro. Pegou em mim e aconchegou-me. De seguida, vendo que estava com fome, descobriu um dos seus seios e deixou-me beber do seu leite. Não me lembro qual era o seu sabor, mas com toda a certeza deveria ser adocicado, cheio de reservas de energia, pois sem isso teria morrido. Essa figura levou-me diante de uma casa que era ocupada por um casal que chorava dias sem conta o facto de não terem um filho, o não terem alguém que ficasse com tudo o que era deles nesse momento. Os seus dias eram amargos até chegar aquela figura, trazendo nos braços a minha pessoa ainda não completamente desenvolvida. Essa figura pediu-lhes que cuidassem dela até ao dia em que o viesse buscar; nessa altura levar-me-ia para cumprir o destino que me tinha reservado. O casal aceitou a proposta e logo tomaram o bebé nos seus braços tratando-o como filho. Educaram-me, é a única coisa que consigo dizer deles; não me recordo de mais, varreu-se-me da alma. Um certo dia, tendo já os meus doze anos e estando a trabalhar num campo um pouco distante da minha casa, a figura divina veio ter com a minha madrasta e pediu-lhe que lhe devolvesse a criança. A minha madrasta perguntou-lhe que tipo de mãe era ela que deixou o seu filho doze anos a crescer num lar, que nunca veio ver como estaria ele ou do que precisaria e passado todo esse tempo vem buscá-lo? A figura com um ar triste afastou-se, sabia que o que dizia aquela mulher era verdade, mas se o tinha deixado com alguém deveria pelo menos velar por ele, era o que tinha feito esses doze anos. Afastou-se e, estando a uma distância da casa lançou-lhe um último olhar, não era algo que quisesse fazer, mas as circunstâncias obrigavam a isso. Depois do dia de trabalho regressava a casa, desejoso de ver a minha mãe. Eu e o meu padrasto vínhamos conversando ainda longe de casa quando a minha madrasta apareceu a correr dizendo que ela tinha aparecido. Os olhos do meu padrasto lançavam o terror que sentia. "Quem é ela?" era o que eu apenas perguntava mas eles não queriam responder. Perante as minhas perguntas viraram os olhos e o meu pai bateu-me, nunca mo havia feito e, naquele momento senti uma grande raiva para com ele. Falavam entre com ar preocupado perguntando-se sobre o que haveriam de fazer. No seio da discussão disseram-me para ir para o quarto e não sair de lá. Eu teimava e puseram-me de castigo. Durante todo o dia ouvi-os falarem na sala com ar muito preocupado, dizendo que talvez tivessem feito o que não deveria ter feito. Eu nada compreendia. No dia seguinte acordei e chamei pelos meus pais adoptivos só que eles não responderam. Pensei que talvez já tivessem ido para o campo. Pensei que talvez estivessem, na cozinha e não me tivessem ouvido. Por fim decidi sair do quarto. O sol já havia nascido e era estranho, o meu padrasto não me ter chamado para trabalhar ou a minha mãe para que me levantasse. Percorri suavemente a casa em busca deles e encontro-os deitados na cama. No rosto de ambos pareciam existir vestígios de terem chorado. Toquei ao de leve nos cabelos da minha madrasta e eis que a presença deles se converteu num punhado de cinzas. Chorei-os. Com as minhas lágrimas qualquer vestígio de terem existido à superfície da terra foi apagado; permaneciam apenas na minha alma como pessoas flutuantes de toda uma vida que passei. Com as minhas lágrimas apareceu a figura que me ajudou a sobreviver. Não sabia quem era, mas algo me dizia que, de alguma forma, a conhecia. Foi então que ela me contou os fragmentos da minha história passada e me fez perder quase todas as lembranças que tinha dos meus pais adoptivos; uma decisão necessária para que não mais chorasse por eles. Revoltei-me contra ela mas ela nada fazia. Apenas me obrigou a ir com ela. Sabendo que iria esquecer parcialmente tudo o que tinha vivido e o aceitava apenas com uma pequena resignação fez-me sentir terrivelmente insensível. Havia sido a primeira vez que me sentira assim. As minhas lágrimas ainda escorriam quando fui levado para a floresta onde havia sido encontrado. Anoitecia e, pedindo ajuda à minha guardiã, reparo que ela não mais se encontrava ali. Procurava lugar para passar a noite quando uns ladrões me cercam. Tentei lutar contra eles, mas eles em pouco venceram-me. Reparando que não trazia nada, pegaram num punhal e cravaram-no no lugar do meu coração. No instante em que o punhal era empurrado contra o meu corpo, reparei que uma outra mão conduzia a mão do ladrão, era a mão da minha guardiã. Acordei como se de um sonho fosse e reparei que, para minha alegria não estava morto. A meu lado encontrava-se aquela figura, sempre presente no início da minha vida. O seio que me havia alimentado, reparei então, encontrava-se seco e a descoberto; nunca mais havia sido coberto depois de me ter alimentado. Perguntei-lhe o que se havia passado e ela disse-me que havia feito um ritual para o qual fora preparado desde que me encontrou. Esse ritual convertia-me num ser imortal. No momento em que recordo estas palavras digo a mim mesmo que nada de humano resta hoje em mim, que já não sou, nem nunca fui um ser humano imortal. Sou um bicho, uma coisa que fica a ver o tempo passar. |
Sunday, October 24, 2004
O Homem que Via Morrer os Homens - Parte I
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