Thursday, March 31, 2005

Um dia vi um gato sentado na lua. Os seus olhos amarelos brilhavam na noite do seu pêlo. Ele olhou para mim e ofereceu-me uma folha de Gikgo amarela e disse-me: "Guarda esse livro pois um dia te dirá coisas."

Monday, March 28, 2005

rastejando por entre dois móveis, uma barata desloca-se silenciosamente. Os donos da casa sairam para umas férias e durante esse tempo tem todo o espaço apenas para ela. Cada dia que passa vai-se sentindo cada vez mais sozinha e, motivada pela solidão convida outrasd baratas vizinhas para se virem juntar numa festa de vários dias.
Convidou amigos e amigas para tomarem uns bons copos e comerem mais um pouco daquela casa que dizia ser altamente deliciosa. O convite passou de mãos em mãos e estendeu-se a todos os cantos daquela cidade e em pouco tempo os insectos foram todos chegando àquela casa por todos os meios: canos de esgoto, pelo ar, à boleia em carros,...
A festa começou assim que começaram a chegar convidados. Havia música que de alguma forma tinha sido posta a tocar, havia champanhe e outras bebidas que enchiam os estômagos de bebedeira e de doideira.
Uma qualquer barata um pouco mais espontânea lembrou-se de beijar uma outra. Quem foram os dois primeiros a beijar-se é complicado de dizer. A festa logo a seguir ficou uma mistura de corpos em poses mais ou menos eróticas fazendo passar as suas seis patas pelos órgãos sexuais de outras baratas numa autêntica orgia insectívora.
Toda a gente comeu algum outro ser semelhante. Não havia distinções entre pessoas, era tudo por puro prazer. Ninguém conhecia ninguém e todos se conheciam. Os olhos estavam cejos pelos efeito do álcool.

Rastejavam por todo o lado como se insectos fossem. Apertavam os pénis e apalpavam os seios a malta toda ganzada. A festa tinha acabado e ninguém queria ir para casa. Dentro em pouco os pais de um dos gajos haviam de vir e ninguém se dignava a mecher-se.
Uma rapariga levanta-se e vai até à cozinha pegar mais uma lata de cerveja e começa a bebê-la. Vem ter um gajo com ela e lava-a a deixar escorrar o líquido pelo seu corpo. Estava gelada. E por estar tão gelada como estava, soube-lhe muito bem o beijo que a seguir deram um ao outro. Estavam tão enrolados que pareciam uma lapa numa rocha. Posaram em cima da mesa da cozinha e enlaçaram-se ainda mais. A certa altura a mesa não aguentou e partiu-se uma perna e eles cairam no chão.

Os donos da casa haviam chegado e a festa não tinha acabado por inteiro. Ao verem o enorme enxame de baratas a dona gritou o mais que pôde e o homem foi de imediato chamar o extreminador de pragas.
Houve algumas dessas baratas que forma mortas por sapatadas dos donos e escorraçadas de casa. Em poucos dias ninguém diria a ninguém que havia ocorrido uma festa naquele lugar. A pobre barata que ocupava aquela casa escondeu-se num canto e durante bastante tempo não saíu de lá. Estava envergonhada demais...

Tuesday, March 22, 2005

Olha para a lua com um ar triste, ar de quem perdeu alguém no caminho da sua vida e não o pode recuperar. Sentado olhando o triste e pálido brilho fantasmagórico do astro solitário um palhaço olha para o céu nocturno.
O triste palhaço tem a cara pintada (branco) as sobrancelhas carregadas, não mais conseguiu despir a personagem que vestia todas as noites de espectáculo. O seu fato não era alegre, antes negro como a noite que o cerca. Nunca gostou de fazer rir, principalmente depois de uma pessoa ter morrido nos seus braços.
Mandava lágrimas, desfazendo o branco da sua face; ali, sozinho, sem ninguém a vê-lo, ele contava à lua todos os seus segredos. Haviam dois anos que tinha morto, por acidente uma menina de quem gostava e a sua perda manchava o seu coração com a nódoa mais negra que pode haver. Aquela menina era-lhe muito querida, andava sempre a rir e animava-o nos dias em que não se sentia nada bem para ir actuar. Tinha sempre alguma coisa a dizer e preenchia o vazio do seu coração.
Agora as noites eram mais tristes, mais solitárias.

Ao longe o palhaço ouviu o som de um piano. Quem quer que o tocasse sabia bem o que fazia. A música era triste, sem cor, apenas com lágrimas... Aproximou-se do som e reparou que uma linda mulher de cabelos vermelho-fogo compridos tocava um piano de cauda no meio de uma seara ainda verde. Em cima do piano estava uma vela brilhando no interior de uma estrutura em vidro e ferro. Brilhava como um farol numa noite, iluminando as suaves mãos da rapariga pousando nas teclas brancas e pretas.
"Amo-te" dizia a música. Mas a resposta não se fazia ouvir.
O vento soprou suavemente sobre a seara e ela estremeceu, foi nesse instante que o palhaço entrou para a luz e ela reparou nele.
- É bonita a música. E tu tocas bem.
- Toco como me ensianaram. Estiveste a chorar?
O palhaço virou um pouco a cara para esconder a cara mas ela insistiu - Está tudo bem contigo?
- Sou um palhaço. Ninguém quer saber da minha história, apenas das minhas piadas.
- Eu sou uma pianista. Ninguém quer saber da minha vida, apenas das minhas músicas.
Ambos a seguir choraram lágrimas conjuntas e a noite se pôs...

Sunday, March 20, 2005

Um rapaz está acocorado a dormir em frente à porta do prédio onde moro. Dorme calmamente, tentando recuperar da noite que havia passado. eu já o tinha visto neste dia mas de manhã, se bem que estivesse a dormir num outro lugar.
Ofereço-lhe ajuda mas com uma voz de quem não quer saber mandou-me à merda. Passo por ele e fecho a porta do prédio na sua cara.

Saturday, March 19, 2005

Uma rapariga corre desesperadamente num enorme corredor sendo seguida pelos seus dois captores. A construção da sua corrida é feita ao som de lágrimas e das gargalhadas dos dois homens atrás dela. O seu seio esquerdo, saindo do vestido, com uma ferida devido aos maus tratos doia a cada passo por ela dado. As suas roupas que ainda restavam coladas ao corpo estavam encharcadas tanto de suor seu, como do cansaço da noite de sexo violento. Restos do esperma corriam pela vagina abaixo misturando-se com o sangue que tinha perdido da sua virgindade.
O rosto aflito dela contrastava com o rosto confiante e sarcástico dos dois captores que tinham o corpo coberto de suor seu. Vestiam apenas umas calças postas à pressa sobre o corpo aquando da chamada do seu amo. Corriam naquele interminável corredor fantasmagórico. Eles nada tinham feito mas sabiam ser neste momento cúmplices da pessoa que lhes dava as ordens. Também eles haviam perdido a sua virgindade, mas uma outra virgindade que a rapariga mantinha ainda.
Vendo toda a cena, um homem manipula tudo o que se passa. A casa onde se encontra o malfadado corredor é sua. Foi-lhe transmitida pelos seus pais que a receberam dos seus pais... Olha toda a cena com um grande sorriso nos lábios. Sabe que a rapariga irá cair de cansaço e os seus dois criados não conseguirão resistir a também eles violarem aquela rapariga feita agora mulher. Sabia que era o responsável por toda aquela situação, mas o se coração havia endurecido tanto como uma pedra e apenas o seu pénis viril falava alto em todo o seu corpo.
Havia muito que toda aquela família estava manchada pelo pecado; dizia-se pela cidade que os donos da grande casa não mais saiam de lá com medo de serem reconhecidos pelos habitantes de lá e fossem espancados. Nada disos era verdade, eles saíam da casa mas sempre de forma secreta, ninguém sabia dos seus movimentos e passeavam-se pela cidade para saciarem os seus apetites e arranjarem o que precisassem.
Além de tudo isso, dizia-se que a casa era assombrada, por isos ninguém se aproximava, havia o medo de serem amaldiçoados caso pisassem o solo dos domínios dos Negros Senhores (como lhes chamavam).
A família tinha regras muito rígidas, nunca poderiam existir mais de um filho. Todos os outros que existissem seriam mortos para que não se alargassem os dómínios do negro sangue pelo mundo.

A rapariga corria desalmadamente... O corredor nunca mais acabava. Não via qualquer porta e começou a pensar que estava já destinada a morrer naquela casa maldita. Fechou os olhos e parou.
Os dois criados aproximaram-se e tocaram-na. Ela acedeu a eles e despiu-se. Eles ficarma surpresos e de seguida fizeram sexo por toda a noite.
Ao nascer do sol, raios tenues brilhando entre os cortinados revelavam um corpo morto de cansaço e dois homens a seu lado partilhando a mesma culpa da sua morte.
Com o nascer do sol foi revelada a discussão entre ambos por terem sido tão violentos com ela e de a terem morto. Eles arcavam com todas as culpas.
Com o meio-dia mais dois corpos haviam-se deitado ao lado da rapariga, ambos beijados pelo suave beijo da morte.

Friday, March 18, 2005

Sinto-me dentro de um enorme casulo. Um casulo vermelho cheio de um estranho líquido avermelhado com sabor doce e textura de seda. Os meus olhos não os consigo abrir, mas a minha pele tem todos os seus poros abertos a receber os estímulos do exterior. Os meus ouvidos já sentem os sons do exterior e a minha boca começa lentamente e abrir.
Todos os dias uma estranha criatura vem ter connosco e coloca no líquido alimento tanto para mim como para outros casulos que estão próximos. É devido a eles que existimos, resgatáram-nos da atmosfera viciada do nosso planeta e conserváram-nos nestes casulos para mais tarde renascermos, ou pelo menos é isso que espero.
Um dia abro os olhos e nesse momento uma estranha criatura vem ter comigo e retira o casulo do sítio onde estava colocado e leva-me para uma outra sala. Nessa sala posso ver que existem outros casulos cujas pessoas têm todas os olhos abertos, esperando o dia de nascer. O dia seguinte é o dia do meu nascimento.
O casulo rasga-se e o líquido que me mantinha vivo vai escorrendo para uma grelha no chão. Os outros que estavam comigo alguns ainda não haviam nascido, outros já e mantinham-se no chão rebolando e arrastando, os seus membros estavam demasiado fracos para se conseguirem manterem em pé, pareciam animais.
Eu saio do meu casulo e deixo-me escorregar até o chão. Cá fora a paisagem parece desoladora, vários corpos acumulados, alguns vivos, outros mortos mas que não foram retirados apodrecem deixando um rasto de nojo na minha boca. O líquido dos casulos escorria para um ralo no chão mas o chão mantinha-se molhado e pegajoso.
Carrego o meu peso até uma saída, mas os seres que nos salvaram mantêm uma vigilância apertada e qualquer tentativa de fuga é imediatamente repelida quer por choques eléctricos, quer por criaturas que nos dão pancada. O único remédio é aceitar a condição de prisioneiros e deixarmo-nos ficar até nos levarem para outro lugar.
Ao terceiro dia estamos completamente esfomeados, parecia que aqueles seres queriam fazer-nos nascer para nos matar à fome. Como não tínhamos nada para fazer tentávamos recordar a forma como falávamos uns com os outros até que as luzes da nossa cela se apagassem e fossemos para as nossas horas de descanso.
Durante a noite o sítio onde estávamos poderia ser perigoso, por mais de uma vez soube de casos de pessoas que foram violadas, ninguém se acusava e o perigo aumentava à medida que o nosso apetite sexual aumentava. Queríamos voltar a ter sexo e toda a gente fazia o mesmo, violar alguém que dormia. Nunca haviam luzes para testemunhar contra alguém.
No quarto dia deixaram-nos sair da cela e fomos conduzidos a uma fábrica onde vários humanos trabalhavam. O esforço que faziam era tremendo mas não nos poderiámos queixar. Os dias não passavam sem que algum de nós fosse levado para uma sala escura onde faziam as coisas mais ediondas e voltavam a libertar os condenados.
Houve um estranho dia em que um dos meus colegas acordou com uma grande vontade de vomitar. Qualquer canto por onde se virasse deixava cair um bocado de bilis amarga que vinha à boca. Ao final do dia tinha a pele estranhamente áspera e febre enorme. Não durmi nada durante a noite preocupado com a sua saúde.
Os nossos carrascos sabiam tudo o que se passava e foi por isso que durante a noite levaram o meu colega embora e nada mais soube dele. Diziam que as pessoas eram levadas para serem executadas, eu achava que era algo mais, se bem que não imaginava o que quer quer fizessem com os enfermos.
Um dia sou levado para a sala negra e entre várias chicotadas, uma agulha acerta-me nas costas, penetrando até ao centro da coluna onde largou o seu conteúdo. A dor que aquilo me provocou foi tremenda, não me conseguia mecher nem sequer gritar. Tinha o corpo à vontade dos meus captores e eles colocaram no interior do meu corpo algo.
Sou de imediato levado para uma outra sala onde me deixam numa jaula com comida e um lugar miserável para libertar as minhas fezes. Estava sozinho na minha cela e isso foi para mim, pelo menos inicialmente, um grande alívio, não mais seria violado ou maltratado pelos meus colegas, também eles prisioneiro (mas não o sabiam).
Passados uns dias acordo e grito de um enorme terror quando vejo o meu corpo tranformado numa enorme vespa. EU TENHO APIFOBIA!!!!! Não ligaram aos meus lamentos e fui-me mutilando cada dia que passava. Todos os dias era apaziguado por algum guarda que me atordoava e passava o resto do dia deitado no chão com dores.
Devido às minhas constantes tentativas de suicídio resolveram, de um modo bastante grosseiro amarrar-me de forma a que não me pudesse mecher. Era como se tivesse um colete de forças, não me mechia para nada. Passava dias de grande tédio esperando que me dissessem para que me queriam. A minha única esperança era morrer de fome.
Ao verem que estava numa condição demasiado fraca para o que quer que fosse resolvem mandar-me para uma espécie de sucata de seres humanos onde colocavam toda a gente que não lhes sevia. Não lhes davam alimento e esperavam que morressem a seu tempo. Foi neste lugar que vi a minha liberdade mesmo antes de dar o último suspiro e morrer...
Mergulho num sono profundo. Esqueço tudo o que me aconteceu durante todo o dia e a flecha da minha droga passa ao de leve pelo meu corpo a convidar-me a viajar pelo seu mundo e esquecer todo o meu passado.
Caido na minha cama não tenho força alguma para resistir e deixo que a agulha dessa abelha me visite o corpo uma vez mais. O seu poder narcotizante afunda-se na minha cabeça e tudo à volta parece girar...
É sempre a mesma coisa...
O mundo à minha volta deixa de ser o que é para passar a ser o conjunto de quadros que tenho na cabeça do que gostaria que fosse o mundo. Aparecem-me duas mulheres completamente despidas para me encaminharem para uma casa onde se encontram bastantes mais pessoas, todas elas sem roupas tocando-se de uma sexualmente excitante.
Na parte de trás da casa está uma piscina. Nela entra uma rapariga que tem uma ferida a sangrar nas costas. Entra na água calmamente espalhando o seu sangue por toda a água até ficar a flutuar.
Por cima de colunas brancas em redor da piscina estátuas brancas espiam a morte da rapariga. Dois rapazes esbeltos beijavam-se mas com a entrada da rapariga na água pararam para a mirar sem interesse especial. Quando o último suspiro de vida se solta dela, eles regressam à sua paixam desenfreada.
Duas mulheres de mãos dadas aproximam-se da água vermelha e entram nela um pouco relutantes. Levam nas mãos um objectivo, tirar a rapariga da água mas isso revela-se complicado pois não querem sujar a sua branca pele.
O corpo é removido da água e um homem com músculos de ginásio aproxima-se trazendo os dois jovens homossexuais. Aponta-lhes o corpo e eles rasgam a pele da rapariga e comem o seu coração pelos dois. Depois do festim tiram o resto das suas roupas e nesse momento beijam-se e fazem sexo mesmo em frente a toda a gente. Alguns dos presentes fazem caras de reprovação mas a chegada de um Dj trazendo música tira qualquer protagonismo.
Ao som da música cada pessoa fica como que emebriada pelo som que bate insessantemente nos seus tímpanos convidando à dança, bebida, comida e sexo selvagem.
A morta é devorada até restarem apenas os ossos e é lançada para um fosso onde se encontrava uma pobre criatura que ninguém gostava por ser feia.
Regresso à musica contagiante e deixo-me beber o sangue da rapariga diluído em vodka e rum. A minha cabeça bate, bate e uma pessoa qualquer, não sei se rapaz ou rapariga, velho ou novo beija-me e afasta-se.
Atinjo o ponto onde nada mais sei... tudo começa a rodar à minha volta. Parece-me ver familiares meus a passear-se por ali... alguns deles também despidos como eu já estava. Beijo ainda mais umas cem mil pessoas e rosso o meu corpo por muitas outras.
Alguém com uma faca faz um corte nos seus pulsos e toda a gente vai ter com ele para beber do seu sangue puro.
Eu afasto-me um pouco deles e vou para a piscina e deixo-me cair de chapa na água. Um dos dois homossexuais vem ter comigo e oferece-me a sua mão. Eu, tão bêbado e mocado que estava, mal tinha forças para levantar o braço e ele ajudou-me.

Não sei mais o que aconteceu...
Tudo saiu da minha cabeça.

Wednesday, March 16, 2005

Dormia traquilamente. Todo o meu dia fora de grande alegria, passara o dia inteiro a brincar e estava cansado. Era final do Verão e ainda fazia calor e por isso deixara a minha janela aberta. Algumas folhas secas já eram espalhadas pelo chão com a vinda de uma brisa.
Sonhava com piratas e outros seres que qualquer criança se lembra de sonhar, sonhava com índios, sonhava com uma ilha...
Observando o meu sono estava na rua uma fada na rua, uma fada muito pequenina sentada num pequeno ramo da árvore do jardim da minha casa. O seu fato era pouco brilhante, já estava velha e daí a alguns anos morreria. Haviam restos de lágrimas nos seus olhos e toda a beleza que outrora tinha estava a apagar-se para dar lugar à idade. A pequena fada já se cansava com grande frequência e os dias pareciam cada vez mais encaminhar-se para o fim.
Todas as crianças a conheciam mas poucos eram os adultos que ainda se lembravam quem era ela e isso magoáva-a muito. Era muito temperamental, por isso quando o Peter resolveu deixar para sempre a Terra-do-Nunca, ela ficou bastante furiosa com ele.
Cada noite que passava a sua ilha envelhecia, cada noite que passava ela se sentia cada vez mais cansada à procura de um substituto para o Peter. Não mais se ouviam os seus gritos, não mais haviam lutas com piratas nem aventuras naquela terra agora velha.
Sininho estava sentada num pequeno ramo da árvore onde eu brincava todos os dias chorando... O meu cão ao sentir a sua presença latiu um pouco deixando-a perturbada. Parecia que todo o mundo a queria matar, magoar para sempre. Ela apenas queria o Peter de volta. Ao ouvir o meu cão a ladrar acordei e fui à janela muito cautelosamente ver o que se passava.
A Sininho estava quase para se ir embora quando reparou que eu a havia visto. Aproximou-se da minha janela e entrou pelo meu quarto adentro. Voou um pouco pelo quarto até se aproximar da minha cama e ficar lá a chorar. O seu brilho parecia muito mais pálido que imaginara nos meus sonhos.
Por momentos não sei o que fazer e apenas me ocorre a ideia de lhe fazer festinhas. Ela olha para mim com restos de lágrimas a escorrerem pela face. Abriu as suas asas e esvoaçou à minha volta, deu-me um beijo e foi-se embora.



Os anos foram-se passando e eu fui avançando na idade. Os meus dias de brincadeira foram-se transformando em dias com outras ocupações, mas aquela noite permaneceu sempre.
Numa noite dei com a Sininho novamente deitada na minha cama. Estava ainda mais velha e o seu brilho quase não iluminava nada. Disse-me que estava muito triste. A Terra-do-Nunca estava a desaparecer, estava a envelhecer demasiado depressa, as fadas não mais queriam saber dela, os piratas tinham ido para outra ilha, os índios começaram a morrer, não haviam mais rapazes perdidos a irem lá ter...
Todas as lágrimas que escorriam dos seus olhos nada mais eram que o sair da vida de lá. O Peter era a alma daquele lugar, sem ele, a Terra-do-Nunca não mais seria encontrada pelas crianças nos seus sonhos. Ninguém mais queria saber dela... As folhas das árvores caíam demasiado depressa. O pássaro-do-nunca não fora mais visto.
Eu já não era nenhuma criança, mas ainda assim, o mundo da fantasia povoava constantemente a minha vida. Muitos eram os momentos em que dava por mim a imaginar aventuras com estranhas personagens num mundo que não é real.
Eu não era nenhum contador de histórias, mas as historias povoavam a minha vida e foi por ver o final trágico de uma delas que dos meus olhos se escaparam algumas lágrimas; eu lembrava-me de em criança andar pelos pinais brincando ao Peter Pan, esperando que ele um dia nos viesse buscar e pudéssemos voar, lembrava-me de estar sentado muito quieto a ler a sua história.
Eu não era mais uma criança e todas aquelas lembranças... custava-me a acreditar que pudessem acabar assim sem mais nem menos. Por não ser criança, não estava nada optimista e acreditava que mais tarde ou mais cedo teríamos notícia do final da Terra-do-Nunca.
Eu não sabia nada do Peter, nunca ele viera ter comigo... e isso magoára-me muito. Deixava a janela todos os dias aberta, mesmo no inverno, esperando que ele aparecesse à procura da sua sombra.
Ambos largámos lágrimas ao futuro esperando que as crianças que venham salvem a terra que sempre nos acolheu nos nossos sonhos...

Saturday, March 12, 2005

Acendi o candeeiro da minha mesa de cabeceira e ele já lá estava. Os seus olhos brilhavam no meio do quarto junto ao sítio onde a minha cabeça se encostava à minha almofada. Os seus lábios húmidos suspiravam pelo meu toque mas eu mantinha-me completamente estático. A sua presença junto a mim era maléfica e nada mais queria que a luz se voltasse a apagar e ele desaparecesse na bruma. Fecho firmemente os olhos e nada mais desejo que ele se vá embora.
Por momentos os meus lábios ficam gelados com o aproximar dos seus lábios aos meus. Espero mais um pouco, não me consigo sequer mecher... Os meus músculos como que estão ao comando dele... As suas mãos pendem os meus pulsos e arrastam-nos por um longo túnel com luz vermelha. Os seus olhos estão pálidos, os seus lábios ainda mais frios e quando me pousa e se prepara para me possuir, os seus joelhos dobram-se e cai em cima de mim morto. Do seu corpo liberta-se um gás muito ténue que se espalha à minha volta.
A vermelha luz do túnel continua a incomodar-me, não sei onde estou. Os meus olhos fraquejam e ainda tenho nos meus braços um corpo morto.
A luz vermelha lanteja, como se a lâmpada estivesse para se fundir e continuo sem saber o que fazer... olho em volta mas não existe ninguém. Deito-me no frio chão e fecho os olhos.

Quando acordo ainda sinto a luz vermelha a piscar. É com este meu acordar que ouço um estranho ruído e me apercebo de que estou num qualquer veículo que começa o seu movimento. Como se fosse uma locomotiva, os ruídos mecânicos fazem-se sentir compassadamente e eu continuo estático. Procuro uma saída mas nada encontro. Mantenho-me naquele expresso à espera que ele pare em alguma paragem e me deixe sair...

Friday, March 11, 2005


evoluímos... transformamos... mudamos...
 Posted by Hello
Hoje mesmo o mundo é mágico e sagrado. Então que nos dispamos e saiamos desta nossa condição de mortais. A carne que comemos é demasiado fresca e a neve que caiu ainda não gelou os nossos corações.
Enquanto algumas pessoas se divertem, outras ficam com espelhos partidos nas mãos. E esses espelhos não são brilhantes, e esses espelhos não mais reflectem a sua face. Apesar de a neve ter praticamente desaparecido, o frio do espelho não deixa de se sentir. As farpas dos estilhaços queimam e dentro de quem os segura um gelo de inverno. É primavera e o sol ainda não brilhou. As minhas mãos estão demasiado fracas pelo prolongado tempo que deixei o espelho partido nelas. Como ele é pesado...
Convidam-me para sair mas respondo que não. O meu corpo em estado febril anseia por uma outra visita que só chegará na triste noite fria. O meu irmão saiu... os meus pais não estão em casa... tão diferente que sou deles...
Centenas, talvez milhões de pedaços de um enorme espelho estão ainda espalhados por todo o mundo. Milhões talvez ainda mais litros de sangue escorrem por cima deles como se os quisessem revestir de vermelho para não mais reflectirem.
O meu coração não bate mais. Os meus músculos não mais se mexem. As minhas pálpebras não mais se fecham. A minha boca não mais se abre. A minha respiração não mais se faz sentir e ainda assim sou presente.
Um ténue e quase invisível fio me liga àquele espelho, um fio que nada mais quer que fazer-me juntar a ele e sermos um só... Ao olhar para as minhas mãos insensíveis reparo nas linhas que as percorrem, nas veias que correm pelos pulsos acima.
Um dos pedaços do espelho tem uma pona mais que afiada, é com ela que me uno defenitivamente ao espelho e passo a fazer parte da sua substancialidade. É nesse momento que o meu sangue passa definitivamente a evadir-se do meu corpo.
evoluímos... transformamos... mudamos...

Sunday, March 06, 2005

Até os deuses temem a morte, o esquecimento de que nós, humanos que os adoramos, lhes viremos as costas e nos voltemos para outro lado, daí que nos venham com milagres e outras visões fantásticas... Os deuses nada mais querem que arranhar as nossas costas e deixar lá a sua marca eterna para o dia em que caiamos no nosso caixão. Ao chegar esse dia, o dia em que a sua promessa se concretiza, visitam-nos como se fossem uma outra pessoa e resgatam-nos das garras da verdadeira morte.
Esta é a única coisa que verdadeiramente podem fazer por nós depois de mortos, desta forma poderemos sempre ser recordados na memória das pessoas que nos eram mais queridas e beijá-las durante a noite para que possam repousar mais tranquilamente pensando em nós da melhor forma.
Um dia quis ter a forma de um deus, quis ser como o eram aqueles seres do Antigo Egipto e que agora apenas são recordos através das estátuas, mas não consegui... Era como se a minha vontade de deixar de ser humano estivesse dependente da minha forma, queria ter garras para rasgar a minha carne, asas para que pudessem ser partidas por toda a humanidade, queria ter o corpo coberto de penas para que pudesse visitar os sonhos das outras pessoas, queria mandar raios para que pudessem ver o quanto às vezes me irritam mas que mantenho oculto sobre a máscara da minha mortalidade.
Um outro dia tentei invocar um espírito, acendi umas velas e tirei as roupas do meu corpo, reguei-me com a água mais pura do mais puro regato mas nada aconteceu, nem uma ténue brisa me veio dizer: "estou aqui", nada... A partir desse dia comecei a sentir-me profundamente sozinho, os rituais de pegar numa faca e cortar os pulsos seguiram-se dia após dia, cada dia rasgava mais um pedaço da minha carne e o meu fluído vital escorria pelas paredes acima como se a gravidade não existisse.
Todos os dias em que procedia ao meu ritual, sentia-me ser visitado por um deus, ou algo ainda mais poderoso que todos eles, penso que um espectro negro a que lhe dão o nome de morte. Não se aproximava de mim, apenas queria falar e eu estava disposto a ouvir. Todos os dias vinha ter comigo e dizia-me que estava cada vez mais proximo o meu dia, mas que não era ainda nesse dia. O seu corpo esfarrapado corria velozmente à minha volta depressa e mais depressa, depois de tudo isso parava mesmo à minha frente, não sentia medo, mas a sua mão fria fazia-me sentir algo de verdadeiramente estranho.
"Que me querias dizer?"
"Obrigado por o ouvires..."
"Mas não oui nada."
"Os teus ouvidos não ouviram nada mas tu estavas disposto a ouvir."
Nos dias seguintes esforçava-me verdadeiramente por ouvir algo mas ela vinha sempre com a mesma conversa. Nada ouvia. Foi no meio de um desvario destes que me virei para ela e lhe perguntei-lhe porque é que não ouvia nada. Ela apenas me disse que se o fizesse, mesmo que distraidamente, morreria nesse mesmo instante.
No dia seguinte ao ir ter com ela não quis fazer nada mais que dar-lhe um beijo no seu crânio. Nada mais vi nos momentos seguintes. Tudo à minha volta rodava depressa demais e a única coisa que me aconteceu a seguir foi curioso...
Vi-me em frente a um lago. Ela disse "Bebe" eu recusei-me e ela quis falar comigo. Determinantemente eu recusei-me a ouvir e ela devolveu-me à vida.

mais um texto para corpos

You should say I love you
You should say I love you
You should say I love you
You should say I love you...
But every day
Every day
You come
Every day
You pass by

You should say I love you
You should say I love you
You should say I love you
You should say I love you...
All those days
All those nights
I don't know why
don't know
don't

You should say I love you
You should say I love you
You should say I love you
You should say I love you...
I would give you
all the things you desire
all the things
things things
just look

You should say I love you
You should say I love you
You should say I love you
You should say I love you...

Saturday, March 05, 2005

por muito que passe o tempo, nada me poderá fazer esquecer o que tu e tu e mais tu fizeram, todos somos responsáveis pelos actos dos outros

Friday, March 04, 2005

Dois homens cruzam-se na rua. Já não se viam desde que acabaram o curso, depois cada um seguiu o seu caminho. Um deles havia-se casado. O outro mantinha-se solteiro, não namorava.
Seguiram para um café e enquanto conversavam sobre as suas vidas uma mulher passa entre eles e pergunta-lhes se tinham um cigarro. Nenhum deles fumava, nenhum deles estava interessado sequer nela e ela percebendo isso afastou-se e eles puderam continuar a conversar.

Thursday, March 03, 2005

uma pasta mole escorrega por um esgoto; nada a detém e continua a escorrer, mole, viscosa como sempre foi...