Hoje mesmo o mundo é mágico e sagrado. Então que nos dispamos e saiamos desta nossa condição de mortais. A carne que comemos é demasiado fresca e a neve que caiu ainda não gelou os nossos corações.
Enquanto algumas pessoas se divertem, outras ficam com espelhos partidos nas mãos. E esses espelhos não são brilhantes, e esses espelhos não mais reflectem a sua face. Apesar de a neve ter praticamente desaparecido, o frio do espelho não deixa de se sentir. As farpas dos estilhaços queimam e dentro de quem os segura um gelo de inverno. É primavera e o sol ainda não brilhou. As minhas mãos estão demasiado fracas pelo prolongado tempo que deixei o espelho partido nelas. Como ele é pesado...
Convidam-me para sair mas respondo que não. O meu corpo em estado febril anseia por uma outra visita que só chegará na triste noite fria. O meu irmão saiu... os meus pais não estão em casa... tão diferente que sou deles...
Centenas, talvez milhões de pedaços de um enorme espelho estão ainda espalhados por todo o mundo. Milhões talvez ainda mais litros de sangue escorrem por cima deles como se os quisessem revestir de vermelho para não mais reflectirem.
O meu coração não bate mais. Os meus músculos não mais se mexem. As minhas pálpebras não mais se fecham. A minha boca não mais se abre. A minha respiração não mais se faz sentir e ainda assim sou presente.
Um ténue e quase invisível fio me liga àquele espelho, um fio que nada mais quer que fazer-me juntar a ele e sermos um só... Ao olhar para as minhas mãos insensíveis reparo nas linhas que as percorrem, nas veias que correm pelos pulsos acima.
Um dos pedaços do espelho tem uma pona mais que afiada, é com ela que me uno defenitivamente ao espelho e passo a fazer parte da sua substancialidade. É nesse momento que o meu sangue passa definitivamente a evadir-se do meu corpo.
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