Thursday, October 07, 2004

Este texto tem a ver com um outro presente no blog; no entanto este está a meu ver mais correcto e é mais sincero até para mim. Fica então a segunda edição de um texto que ainda não lhe dei nome definitivo.



Nasci no seio de uma família pobre que não queria ter mais filhos que aqueles que já tinha. Eu era apenas mais uma boca para alimentar. Foi assim que nasci, pobre e nu como toda a gente nasce; mas à minha espera não estavam presentes nem alegria, mas um simples pesar, um sentimento de tristeza por terem de fazer o que deveria ser feito: matar o filho que acabava de nascer.
Levaram-me para uma floresta e, estando eu a chorar, não tiveram coragem de cometer o infanticídio. Em vez disso abandonaram-me, deixaram-me tão só como haveria de passar o resto dos meus dias. Estaria condenado a morrer não fosse uma figura celestial ter passado perto e ter ouvido o meu choro. Pegou em mim e aconchegou-me, de seguida, vendo que estava com fome, retirou uma das suas tetas e deixou-me beber do seu leite. Não me lembro qual era o seu sabor, mas com toda a certeza deveria ser adocicado, cheio de reservas de energia, pois sem isso teria morrido.
Essa figura levou-me diante de uma casa que era ocupada por um casal que chorava dias sem conta para que tivessem um filho, mas o destino deles impediu-os de o conseguir. Os seus dias eram amargos até chegar aquela figura, trazendo nos braços a minha pessoa ainda não completamente desenvolvida. Essa figura pediu-lhes que cuidassem dela até ao dia em que o viesse buscar; nessa altura levar-me-ia para cumprir o destino que tinha reservado para mim. O casal aceitou a proposta e logo tomaram o bebé nos seus braços tratando-o como filho. Educaram-me, é a única coisa que consigo dizer deles; não me recordo de mais, varreu-se-me da alma.
Um certo dia, tendo já eu os meus doze anos e estando a trabalhar num campo um pouco distante da minha casa, a figura divina veio ter com a minha madrasta e pediu-lhe que lhe devolvessem a criança. A minha mãe perguntou-lhe que tipo de mãe era ela que deixou o seu filho doze anos a crescer num lar e o vem buscar passado todo esse tempo? A figura com um ar triste afastou-se. Sabia que aquilo havia de acontecer e estava preparada para o que deveria ser feito, apenas não o queria. Afastou-se e, estando a uma distância da casa lançou-lhe um último olhar.
Depois do dia de trabalho regresso a casa, desejoso de ver a minha mãe. Eu e o meu padrasto vínhamos conversando ainda longe de casa quando a minha madrasta vem a correr dizendo que ela tinha aparecido. Os seus olhos lançavam o terror que sentia ao meu padrasto. "Quem é ela?" era o que eu apenas perguntava mas eles não queriam responder. Perante as minhas insistes perguntas viravam os olhos e nada diziam para mim. Falavam entre com ar preocupado perguntando-se sobre o que haveriam de fazer. No seio da discussão dizem-me para ir para casa e não sair de lá. Eu teimava e puseram-me de castigo. Durante todo o dia ouvi-os falarem na sala com ar muito preocupado, dizendo que talvez tivessem feito o que não deveria ter feito. Eu nada compreendia.
No dia seguinte acordo e chamo pelos meus pais adoptivos mas eles não respondem. Pensei que talvez já tivessem ido para o campo. Pensei que talvez estivesse, na cozinha e não me tivessem ouvido. Por fim decidi sair do quarto. O sol já havia nascido e era estranho, o meu padrasto não me ter chamado para trabalhar ou a minha mãe para que me levantasse. Percorri suavemente a casa em busca deles e encontro-os deitados na cama. No rosto de ambos pareciam existir vestígios de terem chorado. Toco ao de leve nos cabelos da minha madrasta e eis que a presença deles se converte num punhado de cinzas e quando me apercebo do que aconteceu e vou para os chorar, as minhas lágrimas apagam da superfície da Terra qualquer vestígio de eles terem existido. Apenas permanecem na minha alma como pessoas flutuantes de toda uma vida que passei.
Em redor das minhas lágrimas aparece a figura que me ajudou a sobreviver. Não sabia quem era, mas algo me dizia que, de alguma forma a conhecia. é então que ela me conta os fragmentos da minha história passada e me faz perder quase toda a lembrança dos meus pais adoptivos para que não mais chorasse por eles. Revolto-me contra ela ma ela obriga-me a ir com ela. Nunca na vida me sentiria tão mal como naquele dia sei de tudo o que se passou comigo e, sabendo que iria esquecer parcialmente tudo o que tinha vivido, aceitava tudo com uma pequena resignação. As minhas lágrimas ainda escorriam quando sou levado para a floresta onde fui encontrado. Anoitecia e, pedindo ajuda à minha guardiã, reparo que ela não mais se encontra ali. Procuro um lugar para passar a noite e eis que uns ladrões me cercam. Tento lutar contra eles, mas eles em pouco vencem-me e, reparando que não trazia nada, pegam num punhal e cravam-no no lugar do meu coração. Reparo que no instante em que o punhal é empurrado para o meu corpo uma outra mão conduz a mão do ladrão, a da minha guardiã.



Acordo como de um sonho fosse e reparo que, para minha tristeza não estou morto. a meu lado encontra-se aquela figura sempre presente. O seio que me alimentou, reparo agora, encontra-se seco e a descoberto. Pergunto o que se havia passado e ela diz-me que havia feito um ritual para o qual fora preparado enquanto criança. Esse ritual convertia-me num ser imortal. O único verdadeiro humano imortal. No momento em que recordo estas palavras digo a mim mesmo que nada de humano resta hoje em mim, que já não sou, nem nunca fui o único ser humano imortal. Sou um bicho, uma coisa que fica a ver o tempo passar.
Novamente me revolto contra ela e ela nada diz. Fujo. Fujo. Fujo fujo fujo fujo fujofujofujofujo... nada mais tinha a fazer ali.
Deparo-me com a casa dos meus verdadeiros pais e com um casal à entrada. Dirijo-me até eles e, dando-se conta de que se aproximava, vêm ter comigo. Não me reconhecem. Vendo que me convidam a ficar com eles um bocado pois os filhos estavam a trabalhar, os tempos andam difíceis não é? A conversa prolongava-se e a certa altura não consigo esconder o meu profundo ódio por eles. Começam a amedrontar-se e os meus dedos cravam-se nas suas gargantas fazendo brotar veios de sangue que levam a vida destes velhos para bem longe de onde se encontravam. Em pouco chegam os meus irmãos e vendo a minha figura de raiva, com os dedos ainda a escorrer sangue e os pais mortos, pegam nas suas alfaias e dirigem-se a mim. Nada tinha a esconder, nada tinha a perder. A vida tinha-a com abundância e nada ma tiraria. Foi assim que me dirigi a eles e, apesar de me terem atingido com uma forquilha, a minha ira era mais forte que tudo isso. Tal como havia morto os meus pais, mato os meus irmãos. Terminada a chacina, aparece um cão preto que se entristece com tudo o que se havia passado. Lambe as lágrimas dos mortos e olha para mim com um ar de Tu-és-o-culpado! Não suportava aquilo... Afasto-me e o cão segue-me. Peço-lhe que se afaste. Ordeno que se afaste. Corro para me afastar dele, mas ele continua a seguir-me. Páro, no limite das minhas forças e ele vem ter comigo e lambe-me as minhas lágrimas. Não queria que ele continuasse a seguir-me e, por várias vezes tentei fugas mas ele vem sempre ter comigo, lembrando-me que matei os meus próprios pais.
Alguns dias depois de ter aceitado o facto de que este cão estava condenado a seguir-me, ando pela floresta e o meu companheiro depara-se com um odor e chama-me, indicando para que o seguisse. Vou com ele e vamos em direcção a um lugar que me parece reconhecer, parece-me familiar. A minha casa. O meu lar. Este era o meu espaço. Dirijo-me até à casa que me acolheu em criança mas assim que me aproximo ela apaga-se, como se de uma visão se tratasse. Na minha cabeça só me surge uma ideia: aquela figura celestial. Queria destruir todos os vestígios da minha vida passada.
Revolta...
Na minha cabeça começo a magicar todo o género de artifícios que conhecia e arranjava para tentar matar a presença mais nefasta na minha vida. Os meus dias são passados a conspirar contra a pessoa que havia salvo a minha vida, mas ao mesmo tempo mais ma havia roubado. A sua vida tinha que ficar nas minhas mãos. Passava os dias a conspirar contra ela. Ficava muito tempo sem comer, sem ver ninguém. Pensando apenas no único propósito da minha vida presente: matar uma entidade divina.
Não sei se ela sabia ou não da minha conspiração, a verdade é que quando apareço defronte dela, assustei-a. Havia conseguido um meio de iludir toda uma imensidade de vigilantes do mundo divino e havia-me colocado ao mesmo nível de um deus. Para mim, nessa altura poderia fazer o que quisesse a qualquer deus como se de um humano se tratasse.

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