É uma quente tarde de Junho. Diz um actor. Verão. O público entra na sala de espectáculos com toda a sala escura. Faz-se sentir a luz que vem do palco com as cortinas a serem corridas. Dois actores movimentam-se já. Um deles veste a personagem Pedro enquanto o outro o nome de André. Os seus nomes foram escolhidos ao acaso, não se trata de ninguém em concreto.
Existem outros actores. Também eles se encontram já em cena mas não se mexem. Estão à volta dos outros dois. Actuam como se fossem sombras julgando os dois protagonistas no centro da cena.
Todo o espectáculo está gravado, tal como se fosse o palco fosse uma tela de cinema com um registo virtual que nunca foi filmado. Toda a acção gira em torno da problemática relação entre as duas personagens.
Um filme pornográfico passa diante dos olhos de dois desesperados, diz o actor. Não se conhecem os actores e a história não existe, apenas acção. Dois ou, por vezes três ou mais, corpos geralmente nus em toques enérgicos fazendo sexo. O prazer que dá a homens ver esses filmes e colossal. O sangue flúi mais acentuadamente no sexo e excita-os, leva-os a desejar ter prazer. Dois actores vêm um filme pornográfico procurando excitar-se.
Faz-se noite na sala. Diz o actor, a peça acaba de começar.
É um quarto o local onde decorre a cena. É um quarto de estudantes, onde tudo se encontra disperso um pouco ao acaso. Há livros em estantes e na secretária. Folhas por tudo o lado. Não existem cadeiras e a cama é apenas um colchão posto no chão. Em cima de uma caixa há um ecrã ligado passando um filme pornográfico. Espalhados pelo quarto habitam restos de cigarros. Junto à cama o respectivo cinzeiro um pouco cheio. Pelo chão estariam copos, garrafas de água e de cerveja, algumas estão vazias. Um canivete espetado sobre a mesa e roupas dispersas algumas delas já usadas fazem parte do cenário. O caos seria o dono do quarto. Era o quarto de Pedro. O seu mundo.
Os móveis são completamente frios. O metal domina a paisagem não deixando esperanças para a madeira se libertar do seu jugo. Sente-se como se se estivesse numa cela apertada, sem cores demasiado vivas. As roupas dominam o olhar, são as únicas cores que mancham o espaço. Estão dispersas por todo o quarto. Algumas estão dobradas de forma rigorosa como se quisessem libertar do caos e tentar dar uma ordem a tudo.
O cheiro de incenso sentir-se-ia levemente pelo ar em constante luta contra o odor do fumo dos cigarros que dominavam completamente. Apenas lhe restava acabar de se consumir e aniquilar-se. Enquanto isso não acontecia, ardia comodamente em cima da secretária. Desde sempre que estes cheiros lá estiveram. Desde sempre eles o sentiram e apenas agora os descobriam.
Os actores misturam-se com o fumo do quarto, espalham-se como baforadas do cigarro, apenas as suas palavras resistem.
A descrição do cenário seria feita como se fosse uma gravação, algo distante, afastado que tenta desesperadamente chegar até ao público. Descreve todos os pormenores, desce o cinzeiro ao canivete. Qual a disposição das garrafas e quais delas têm líquido no interior para que o próprio público sinta como se estivesse na sua casa e conhecesse todos os seus cantos.
O lugar onde decorre toda a cena será sempre tratado como uma prisão. Ninguém pode sair de lá. É sempre um lugar de fumo, de cinzas. Um lugar de solidão e desespero.
A peça começa agora, diria o actor. Nada se sabe acerca das personagens, da história, apenas o nome de cada uma. Um nome como qualquer outro.
Eles olham-se durante muito tempo sem nada dizer. O público estranho nunca entraria no seu mundo, é algo de distante. É algo de estranho.
A peça começa agora, agora, agora. A peça começa e termina sempre. O actor olha o público como se esperasse dele uma resposta. O público seria indiferente, estranho.
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