26 de Agosto
Por onde hei-de começar esta carta…
Ando e ando e não sei mais por onde andar; acredito firmemente na ideia de que entrei num beco do qual não mais posso sair. Agita-se a minha alma porque não sabe mais o que faz, o meu pensamento interrompe-se e as fugazes ideias que surgem na cabeça de uma forma de mudar a minha vida escapam-se como o éter.
Não acredito que possa ser útil ao mundo; o meu nascimento já há muito que deixou de ser motivo de alegria para quem me rodeia: não encontro o MOMENTO de me voltar a encontrar… Busco em vão por uma esperança que há muito me deixou…
Como vim aqui parar?...
Já pensei muitas vezes no que não deveria ter feito para melhorar a minha situação de hoje; sempre que nisto penso vem-me à ideia uma certa tarde quando eu e uns amigos meus andávamos por aí, naquelas ruelas que só pessoas com a nossa idade conhecem tal como as conhecemos (os bófias podem conhecer como a palma das suas mãos, mas o valor que encontram naquela escória é sempre o mesmo: um bairro de droga). O nosso bairro era especial: conhecíamos os locais a evitar porque a certos amigos nossos lhes vimos vender pó. Creio que o meu erro foi ter visto isso…
Como dizia, vagueávamos por entre ruelas e portas por onde se entrava mas não mais se sai… Conhecíamos os cantos à casa; pouco tempo depois da “visão” da realidade que ali nos emergia sabíamos quais eram os melhores, os que tinham problemas com a polícia e os que nos ofereciam a maior segurança de uma colheita sem problemas; nesta altura ainda nenhum do nosso grupo havia sido tocado pela abelha… Foi com o conhecimento da coisa que fomos aos poucos entrando nesse mundo que desconhecíamos e que se nos mostrava repleto de todas as maravilhas… Minto ao dizer isto. Nunca nenhum de nós achou que estaria no paraíso ao consumir, a verdade é que havíamos ouvido falar tanto nas aulas sobre este tema que, dada a nossa idade, mostrámos curiosidade em experimentar, pelo menos uma única vez. Achávamos que experimentando e saindo ileso haveríamos de ser heróis, pelo menos no nosso mundo. Foi a isto que viemos parar…
Toda a gente acha que os drogados entram pelos mesmos motivos; só os principiantes o acham… Destro disto existe uma série de motivos que, alguns dos quais nem sequer imagino.
Eu e mais três gajos cruzámo-nos numa ruela com um gajos que sabíamos ser traficante. O J. falou por todos nós:
«Sabemos que vendes drogas.»
«Vão mas é para o pé das vossas mães…»
«Queríamos experimentar…»
Esta foi a derradeira frase; se não fosse ela o gajo ter-se-ia ido embora e pouco tempo aparecíamos mortos ou qualquer coisa do género; causa de morte: espancamento.
«Que vos mandou vir ter comigo?»
«Ninguém; queríamos experimentar.»
Ele não mudou a sua expressão; para ele era só mais uns quantos caídos numa armadilha e que quando se apercebessem do que havia acontecido com eles já seria tarde para voltar atrás. Levou-nos até um local que lhe servia de refúgio; abriu uma enorme porta que não tinha trinco; só uma fechadura cuja chave ele tinha; quando a porta se fechou percebemos que algo nas nossas vidas se havia transformado: entráramos num local de onde não havia fuga possível.
«E que produto querem?»
«Coca…»
«Tomem uma pequena dose para cada um de vocês. Não vale a pena juntarem-na toda para darem a alguém porque a pessoa que vos pediu não se sentirá satisfeita.»
Compreendi então que o mundo em que estávamos agora a entrar era mais complicado do que imaginava; a verdade é que um amigo que já se havia metido nisso nos havia pedido; mas compreendemos que o nosso passante sabia de quem se tratava. Percebi naquele momento que à medida que se vai entrando cada vez mais fundo, seria cada vez mais difícil sair e cada vez mais difícil saciar o nosso vício; não se comparava a nenhum outro.
Poderíamos ter fugido dali, mas a verdade é que não queríamos transparecer isso. Percebíamos que o sítio onde entráramos nos levaria a algum outro lugar.
Pegámos nas coisas e fugimos dali; sabíamos que não deveríamos ter ido até aquele sítio. Já um pouco afastados rimos como desalmados que nada mais tem a fazer que gozar a vida.
Cada um de nós foi para sua casa com vontade de experimentar; vimo-nos na manha seguinte, mas o J. não tinha vindo; fomos até casa dele e encontrámo-lo deitado na cama com um olho negro e alguns golpes no braço; o mundo que nos começava a cercar era cada vez mais estranho e cheio de perigo; a adrenalina subia em nós a ponto de querermos cada vez mais experimentar.
Durante a noite nenhum de nós tinha experimentado. No dia a seguir o J. veio ter connosco dizendo que tinha experimentado e que tinha sido a melhor sensação. Descreveu-nos o como se sentiu bem, uma coisa que só acontece nos primeiros dias; a partir de então começa a amargar cada vez mais, só que nós não sabíamos. Também nunca soubemos se a descrição que o J. nos fez havia sido real ou não; é que das vezes seguintes ele não foi connosco… Pensámos que nos tinha traído…
Eu ainda não tinha experimentado, também não estava com intenções de experimentar; as descrições deles faziam-me crer que estavam erradas e que eles ainda estavam pedrados.
Um dia, por acaso, tudo mudou. Cheguei a casa e encontrei os meus pais a discutir. Nunca os tinha visto fazer semelhante coisa; no entanto, como fiquei a saber depois, discutiam quando estavam sozinhos para que nós não soubéssemos e parecessem um casal feliz. Naquele dia tinha-lhes dito que iria a uma festa e que voltaria tarde; só que a festa era tão chunga que me vim embora depressa. As minhas irmãs não estavam em casa. Porque é que tinha de voltar para casa?... A minha ruína começou então…
Atrás da porta do meu quarto ouvia os que diziam; falavam de coisas que nunca tinha ouvido: parecia que a minha mãe desconfiava que o pai a andava a trair; ele por sua vez dizia que não e que aquela discussão era ridícula. Falaram de coisas do passado e fiquei a saber que a minha mãe não era tão ingénua como fazia crer; o seu passado encontrava-se cheio de mentiras. O meu pai não era nenhum homem civilizado como eu o imaginava; era alguém que andava por aqui a fazer uns biscates para arranjar algum dinheiro; chegou mesmo a matar numa época em que a nossa terra andava num caos.
Ouvia tudo…
Consegues imaginar o quanto sofria… Claro que não; a tua vida é mais simples, ou muito mais complicada que a minha não é assim que se diz?
Foi com lágrimas que comecei…
Foi ao som do meu choro, ouvindo os meus pais gritando, olhando para aquele pedaço que não tinha deitado fora, que o fixei e me enchi de pena porque iria começar…
Foi com o sabor amargo da tristeza que peguei na seringa e mergulhei no mais fundo oceano que existe… a perdição…
Caminhei até ao material contando cada como os últimos da minha inocência, como se fosse morrer; o que na verdade aconteceu… Não mais consegui ouvir os sons dos pássaros e das florestas, não mais consegui pegar na minha viola para tocar qualquer coisa de jeito… MORRI…
Não sei porque me querem que continue a viver; porque é que querem um monstro ambulante que nada mais sabe fazer que é arranjar dinheiro (sabe-se lá de que maneiras), comprar certos produtos e consumi-los.
No dia seguinte não me conseguia mexer; tinha os músculos completamente bloqueados mas no meu íntimo ainda sentia pena… uma pena de mim… o último vestígio daquilo que era.
Não sei por onde andei. Sei que estava na maior… Aliás, revelando como nos sentimos os sermos tocados é algo que é inexplicável… Sei que estava na maior, apesar de derramar ainda algumas lágrimas de início… Não sabia porquê…
Durante a noite senti-me bem.
O pior… foi depois…
Quando acordei pelo azucrinar aos meus ouvidos de um barulho matinal daqueles que tiram o sono a qualquer um e que só aparecem durante as horas mais inoportunas não me mexia…
Não sabia porquê…
Queria mexer-me e não conseguia; o corpo doía-me todo…
As minhas mãos foram a primeira coisa a mexer-se; quando as via ia tendo um ataque de terror pois pareciam-me cobertas de sangue; sentia como se tivesse cometido algum crime e não sabia que tinha feito… Estava num mundo novo e que nada do que me era familiar me agradava; por isso tinha de procurar sempre algo de novo; tinha de tentar algo de inovador; algo que me fizesse sentir vivo……………………………………………………………………………… …………………………………………………………………………………………
Só que caí na real… Já há muito que havia morrido… Porquê prolongar por mais tempo este estado de morbidez? Diz-me será que arranjas um argumento que me consiga demover? Será que as tuas palavras conseguem sobrepor-se àquilo que sinto agora? Será que o amor que consegue mover montanhas e derrubar paredes consegue fazer algo por um ser que não é mais amado?
Será que és mais forte que eu no estado em que me encontro?
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