| Amo-me acima de todas as coisas. Por vezes via-me ao espelho e a minha imagem era tão bonita que chego quase a pensar que o meu espelho é mentiroso. Chamaram-me um dia e disseram-me que era bonito. Queriam-me. O meu ego foi tanto que em vez disso resolvi afastar-me e voltar a casa. Quando chegeui a casa mirei o meu espelho e o que é que vejo?
EU apenas EU. Tirei lentamente toda a minha roupa e fiquei uns instantes olhando para aquele reflexo que tanto amava. Sabia que nunca o poderia amar completamente, aquela imagem não era real... eu não estava do outro lado do espelho. Ainda assim fechei levemente os olhos e aproximei-me do espelho. Fiquei a sentir o reflexo. fiquei a sentir-me ver-me a mim próprio. Aproximei os meus lábios do espelho e beijei-o. A minha paixão era tanta que beijei o meu reflexo sem ver o tempo passar. o que me importava é que amava o reflexo... não sabia se ele me amava mas isso não me importava. Os meus lábios gelavam como se a frieza do meu reflexo quisesse quebrar o calor da minha paixão. A certa altura a excitação era tanta que o meu pénis inchou de prazer. A tusa era tanta que apesar da ridícula imagem resolvi envolver-me num estranho ritual de sensialidade onde nenhum dos dois prisioneiro poderia envolver-se completamente com o outro. Um vidro separáva-nos. Um vidro, antes limpo para que me visse bem, agora encharcado em suor dos nossos corpos. O meu sósia estava excitado demais e no meio de tanta paixão levou a mão ao seu sexo e começou a deslizar as peles para cima e para baixo. Gemia... O prazer era acima de tudo arrasador; nenhum dos dois conseguia conter-se. O esperma deslizava pelos conplexos tubos, passou por todas as glândulas e os músculos do teso pénis forçaram-no a sair. Os meus olhos reviraram-se de excitação e o líquido viscoso ficou preso no vidro que nos separava... Os nossos olhos ainda se cruzavam... Queriamos o outro mas isso era imposível. A ponte que nos separava era intransponível... Não sei qual de nós teve a ideia, mas a verdade é que forçamos aquela barreira a ceder. tudo estava bem até que o pequeno esforço se conveteu numa força brutal de ambos os lados e abrimos uma pequena fresta que em pouco se converteu numa grande fenda que queria partir o vidro em dois. Um segundo foi o que durou a nossa eterna e definitiva separação. O vidro... Estilhaços... Um chão sujo de sangue... Um corpo ensanguentado... Um segundo converteu os nossos desejos mais violentos em perdas maiores... Não mais consegui erguer a minha cabeça daqueles pedaços de vidro, não mais consegui sentir o meu reflexo completo. Aquele espelho era tudo o que tinha e foi-se embora. Só depois de perceber o que se havia passado é que me dei conta que não mais o voltaria a ver... A minha paixão fora-se. Todos os meus esforços acabaram em tragédia. Foi então que chorei... Chorei tanto e tão amargamente que os olhos desesperados que apareciam nos estilhços já mal me conseguiam ver-me. Não eram mais os do meu reflexo... Não era mais eu... Diziam que eu era bonito. Talvez tenha sido por casa disso que as minhas mãos se tornaram folhas e a minha cabeça uma flor... |
Monday, August 30, 2004
Narciso ou apenas eu...
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2 comments:
... tu 'estiveste lá'!!
maybe.. who knows...
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